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Vinil Review
19 maio 2017

Antes do “Undo”

O tempo vai passando e, de repente, a gente percebe que muito conhecimento vai ficando perdido para trás. Acho as novas tecnologias muito importantes e úteis, mas conhecer o que veio antes também nos enriquece… Vi claramente essa questão quando visitava uma exposição das obras do grande Salvador Dali – estava observando uma pintura em papel, onde flores tinham duplos sentidos. Ao meu lado, um trio de jovens, jeans e coturnos, observando por um bom tempo a mesma peça. Comentei com eles sobre a criatividade de Dali, em fazer essa mescla de flores com gramofones, expliquei o que era cada coisa, já que vi que eles não tinham entendido a pintura… Eles ficaram surpreendidos com os meus comentários. Ouvi deles uma exclamação: “Cara! Como foi que você viu isso?”  (claro, não faziam a mínima ideia do que era um gramofone! E talvez não tivessem reconhecido nem mesmo o disco… rs).

Participei de processos muito variados desde que comecei a trabalhar em estúdios, quando tinha 16 anos. Mas hoje, vou compartilhar com vocês como fazíamos uma sessão de estúdio para gravar, por exemplo, um jingle para uma publicidade bacana.

 

O maestro chegava ao estúdio, geralmente ainda finalizando o arranjo (tudo sempre na correria do mundo publicitário, como ainda acontece…) e trazia com ele um copista, para copiar as partituras (à mão) para todos os músicos que participariam da gravação. A orquestra já estava convocada. O estúdio era preparado para gravar a base (bateria, piano, baixo, guitarra…). Iniciava-se a gravação, feita sem computador (não existia ainda!), numa fita de 2 polegadas, que gravava até 24 canais. Depois da base, vinham os outros naipes – cordas, por exemplo. Desmontava-se toda a instalação de microfones/fones, etc. no estúdio, para colocar cadeiras, estantes de partitura e outros microfones para as cordas, que já estavam prestes a chegar. Depois, metais, se fosse o caso… e assim por diante.

Era um momento especial e bastante tenso – o técnico participava de todo esse processo, saindo da mesa para ajustar os microfones no estúdio. Os canais da base, já gravados, ficavam na espera, e eram postos para tocar (sem gravar nada mais) para a passagem de som. Ao sinal do maestro para iniciar a gravação do próximo naipe, era necessário muita atenção – se abríssemos um canal errado, já gravado, para a nova gravação, tudo que havia sido gravado nele era apagado! E, nessa hora, aqueles músicos já haviam ido embora, não tinha como consertar – tinha que chamar todos de volta, para gravar novamente. Imaginem a tensão… O microfone ficou mal posicionado e não captou direito? Não tem conserto…

Tem que fazer de novo. Nada de “undo” (rs) para consertar uma possível falha. Custos altos para refazer qualquer coisa, já que eram muitas as pessoas envolvidas.

Em compensação, era muito recompensador o envolvimento de tantas pessoas, contribuindo com sua criatividade e musicalidade – um trabalho que sempre me alimentou a alma!

Música traz mais vida à vida!

 

Helder R Alvares

 

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