Post Exclusivo

Vinil Review
20 maio 2017

Inferno Congelado por Sintetizadores. David Bowie “Heroes”

 

Heroes” é o 12º disco de estúdio de David Bowie e 13º disco de carreira do inglês de Brixton (falecido no dia 10/01 do ano passado). Foi lançado em 77 e produzido por Tony Visconti. Faz parte da trilogia de Berlin (mais Stage de 78 e uma sequência com The Next Day em 2013) que contou com o inicio em Low de 77 e finalizando com Lodger de 79. Foi gravado no Hansa Studio By the Wall em Berlin Ocidental. Contou com os fieis Carlos Alomar (guitarra, considerado uma das armas secretas de Bowie), George Murray (baixo), Dennis Davis (bateria), além de Robert Fripp na guitarra solo, Brian Eno nos teclados, sintetizadores e tapes, o próprio Visconti nos vocais de apoio e Antonia Maass tbm nos vocais. No disco Low, Iggy Pop e a esposa de Visconti participaram dos vocais (um trabalho muito belo por sinal).

O disco traz o desenvolvimento da “fórmula” do álbum anterior, desenrolando ainda mais o estilo artístico sônico da influencia do krautrock, por meio de Brian Eno, um dos entusiastas do estilo naquela época. A contribuição de Fripp, em período sabático, foi devidamente notado pela imprensa. O guitarrista veio exclusivamente dos Estados Unidos, onde estava residindo após a dissolução do KC para a gravação. O período de contribuição de Fripp em estúdio não ultrapassou a marca de 24 horas, contando com varias camadas de guitarras e a parte solo da faixa titulo, com o conhecido manejo no Fripptonic. “Heroes” foi ranqueado pela NME como o melhor disco do ano e ainda referiu na resenha: “(…)será muito difícil alguém bater o disco de Bowie este ano”. A bolacha ficou caracterizada como a sonoridade do “espirito do momento”, abrangendo a guerra fria, simbolizada pelo enorme muro que ladeava o estúdio.

 

Segundo Bowie: “a atmosfera de Berlin era tão fria, o que contaminava as pessoas ao redor. Queria que meus discos tivessem esta sonoridade. É o que aconteceu com Heroes e os outros. Era muito divertido ver os guardas do muro espiando a sala de controles e as vezes Brian fazia alguns sons esquisitos e amplificava-os e começava a perguntar para eles o que achavam, mas eles não entendiam nada do que acontecia. Já os guardas vermelhos ficavam espionando a gente de binóculos nas guaritas do muro.” Ainda, Tony Visconti conta que: “Foi uma aventura gravar em Berlin. Primeiro Bowie e Iggy Pop foram para se desintoxicarem. E logo na capital da heroína!. The Idiot e Station to Station saíram e Pop estava acabado para aquela turnê. Após isso, Bowie foi gravar seu filme de alienígenas e muito material com influencia de Neu! e Florian Schneider (Kraftwerk) foi estocada com ajuda de Brian Eno. A gravação de Heroes tinha toneladas de material naqueles moldes, que saíram da trilha de The Man who Fell the Earth e de Low. Não sabia mais onde um começava e onde o outro terminava. Temi em colocar coisas repetidas de Low em Heroes. A edição do disco foi uma das mais complexas, mas o período em que passamos na Alemanha foi divertido demais. Quando saímos de Berlim e nos dirigimos para Isolar II, a primeira sensação foi de saudades daquele ambiente congelado. Nunca mais tive esta sensação novamente. Heroes foi a ultima grande aventura de nossas vidas.”

 

Vale frisar que este comentário de Visconti já diz muito a respeito das gravações. Bowie com este disco prestava as devidas homenagens ao krautrock, inclusive “pegando” o titulo de uma musica do Neu! chamada Hero (do terceiro disco, de 75). Michael Rotter, guitarrista da banda alemã foi convidado para tocar neste disco por Eno, porém Fripp foi quem tocou. Ao ser convidado por Bowie, Fripp quase declinou a oferta referindo que não tocava já fazia 2 anos. Mas Bowie assumiu o risco e sendo assim Fripp se dirigiu ao estúdio para a gravação. A influencia de Florian Schneider e seu Kraftwerk veio nas experimentais V2 Schneider, Sense of Doubt e Moss Garden, sendo que a primeira peça referida fazia referencia direta ao musico alemão. O fato é que Bowie estava impressionado com Trans Europea Express, lançado em Março daquele ano. E assim como Low, reservou uma parte do disco para momentos mais “dark” e etéreos (influencias de Fripp & Eno No Pussyfooting e Evening Star de 73 e 75).

Chega a hora da faixa título, uma elegia a uma paixão contaminada por ciúmes e paranoia. O famoso fripptonic que entoa pela musica é um dos momentos mais emblemáticos de 77 (junto com Dear Lord, do mesmo produtor). Trata-se de um casal que se encontrava em recantos mais escuros e secretos do muro, o que realmente acontecia com Bowie naquele período, pois o mesmo vivia dando suas escapadelas para se chapar e se encontrar com certas donas exóticas que se contentavam com os centavos daqueles tempos. A cadência do vocal de Bowie vai aumentando com o passar do tempo da faixa, até chegar à parte do desespero, onde o registro alto do camaleão permanece até o seu ultimo suspiro. É o momento catártico, onde tudo pode dar errado, e mesmo assim, o sabor do ilegal propulsiona o autor para o delito final. Com a letra, os solos e a percussão são mais contundentes, em um momento de confusão nunca antes experimentado em uma canção conceito. Era o momento do “eterno enquanto dure”. O momento lírico dos golfinhos é a parte onde o autor, como todos nós, reclamamos por uma liberdade que esta em algum lugar distante e intangível. A liberdade seria o deslizar na água, assim como os golfinhos, uma simbologia da inteligência e da liberdade dos seres. Rei e rainha personificam o simples “nós”. É a consequência da liberdade, onde podemos ser heróis por todo o sempre, ou por apenas um dia, sendo este o desejo do autor, passando a responsabilidade para o ouvinte ser o herói de todo o sempre. A vergonha que esta no outro lado representa alguma amante que esta do outro lado do muro, ou nos outros que os condenam de maneira moral.

É o convite final. Viver da liberdade com coragem e sem limitações.

Para um roqueiro era fácil viver desta forma. Mesmo assim, Bowie desafia os ouvintes com estas constatações. A atual encarnação do King Crimson chegou a tocar Heroes em seus encores.

Sons of the Silent Age prossegue com o “spirit of the age” reportando a melancolia de seres separados, mas que faziam parte da mesma geração. Era a constatação da separação, e a parte musical traz a tona toda esta paranoia, em um momento mais lento que o habitual, onde se ouve a voz de Bowie como que saída de um sonho em meio a percussão e os teclados climáticos de Eno. Blackout é a emocionante faixa 5, um clássico da musica eletrônica, onde o fripptonic novamente traz aquela sensação de arranhadura animalesca e dissonante, só para confundir o ouvinte. Estaria toda esta “barulheira” correta, obrigaria o ouvinte a voltar a musica e se indagar se estaria ouvindo certo. A sonoridade conhecida como “noise” surgiu daqui. O minimalismo proposto em partes anteriores aqui é perdido e recuperado na parte experimental do disco. V2 Schneider, a faixa em homenagem a Floriam do Kraftwerk já anunciava o clima soturno que viria a seguir, sendo que o silencio é prestigiado, com apenas a vociferação do titulo, enterrado na mixagem (adiantando um pouco o voccoder usado de maneira consistente na musica eletrônica e na musica disco, Moroder deve ter escutado muito). É aqui que a viagem experimental começa, com os teclados e sintetizadores unificados a guitarra amplificada de Alomar e ao sax de Bowie. Chega o momento de Sense of Doubt, Moss Garden e Neukoln, três faixas unificadas ao conceito minimalista do krautrock.

O conceito usado em No Pussyfooting e Evening Star é usufruído aqui novamente, adicionando ainda mais a coloração pálida de Berlin e sua vida noturna, onde a paisagem moderna, mas já deteriorada do pós guerra cria o ambiente ideal para o capitulo do disco. Alguns rugidos tortuosos são ouvidos, parecendo o arranhado da palheta na corda da guitarra de maneira bem lenta e amplificada na mixagem. É a volta do deserto congelado por sintetizadores de Fripp & Eno, com pianos pesados e sintetizadores contrastando em um ambiente com possibilidades de um apocalipse iminente ao mesmo tempo do crescimento e da esperança. Moss Garden é a parte que dá a esperança, e o barulho do vento logo é substituído por uma sonoridade mais romântica. Phillip Glass usufruiu da sonoridade em sua trilha sonora da dupla de filmes Koyaanisqatsi e Powaqqatsi de 82/87, criando uma simbiose única entre som e imagem (Sound+Vision).

Para não haver estranheza, o clima soturno retorna em Neuklon, com um torturado sax tocado por Bowie em lânguidas e destoantes linhas unificadas a um riff de guitarra downer e um sintetizador mais discreto que o usual. Após se enveredar pela antessala de seu  inferno pessoal, Bowie escolhe como musica final a solar e iluminada The Secret Life of Arabia, mais animada, dissipando o vento congelado dos 36 minutos anteriores. É uma faixa de mais coração e calor. E assim se encerra um dos melhores discos de Bowie. O clima mais oriental é ditado pelo violão de Alomar, onde se tem por instantes um retorno ao passado de Young Americans, em uma leve deslizada para o soul, mas nada tão cabal e em nada definitivo. Novamente a batida traz referencia a batida de Melt e Scratch. Os sintetizadores da faixa dão um tom espacial a faixa. Heroes com aspas foi ranqueado em numero 03 no Reino Unido, e ficou por lá por 30 semanas, sendo uma unanimidade em 77. Nos EUA o disco ficou em numero 35 na Billboard. A capa com foto de Masayochi Sukita foi inspirada por um artista alemão chamado Erich Heckel (pintura chamada Roquairol, que também inspirou a capa de The Idiot de Iggy Pop). A sessão de fotos ficou sensacional com uma série de fotos maravilhosas centradas no rosto de Bowie com alguma expressão corporal. A estratégia de marketing era estupenda, com cartazes do disco e da divulgação da Isolar Tour II com os dizeres: “Há a nova onda e a velha onda, e há David Bowie”.

Musicas do disco acabaram adentrando na trilha sonora do filme pessimista Christiane F em 1983, que trazia muito do período do muro em Berlin. Mesmo assim, Bowie foi atacado por todos os lados e o numero 01 jamais veio para Heroes. Scary Monsters de 80 acabou sendo o disco que recuperou a vendagem nos EUA, passando para o numero 12 e sendo o primeiro numero 1 inglês de Bowie desde Diamond Dogs. O cantor mostrou-se um mestre da reinvenção. Ao ser rotulado como um roqueiro mais pesado em idos de 73,

Bowie mata Ziggy Stardust e se embrenha no soul e no funk,

 

assumindo uma espécie de “alma de borracha”, sendo um dos mais proeminentes cantores do estilo blue eyed soul junto com Van Morrison. Após, assumiu a persona mais frigida de Heroes, mesmo colocando para fora sentimentos que estavam encaixotados e protegidos a sete chaves. Esta é o poder de um camaleão; assumir para si uma nova persona, fundindo em si, cores não características ao do seu corpo original e primordial (bem aos moldes do camaleão Zelig de Woody Allen). E isso que torna Bowie fascinante. Quando o ouvinte acha que vai enjoar de certa fase, chega ele e manda tudo para o ralo, lançando-se em uma estrada mais perigosa e tortuosa que não é a sua. Isso que torna Heroes tão fascinante, instigante e memorável, o que acabou o tornando um dos grandes discos dos anos 70 e um dos maiores álbuns da história do rock.

FONTE: artigo escrito em 11 de janeiro de 2016 e publicado no grupo secreto do face Rockpedia, para a série Álbuns Obrigatórios, de edição numero 363.

Eduardo “Rusty James” Macedo

Comentários

Comentários

|