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Vinil Review
22 maio 2017

Performance II. A relação Compositor/Interprete/Ouvinte

Como escrevi no primeiro artigo desta série, ainda que compositor e interprete sejam a mesma pessoa, a música precisa deles e do ouvinte para completar seu ciclo, para fazer sentido em nossa existência.

Vamos analisa-los separadamente. O compositor é aquele musico que tem ideias musicais e tem de reduzi-las à um texto escrito (sempre lembrando que estou me referindo à musica impressa). Os símbolos musicais sofreram uma longa mudança nestes últimos mil anos. Tudo para se adequar mais precisamente ao pensamento musical, mas são ícones que não têm uma relação direta com o som. São relações criadas e aperfeiçoadas por todo este tempo, mas que normalmente não reflete com precisão a ideia do compositor.

No século XX vimos estes signos mudarem completamente em duas direções: ou a extrema precisão como no caso dos compositores serialistas e em especial do francês Olivier Messiaen, que criou uma forma de notação incrivelmente rebuscada para poder notar o ritmo preciso do canto dos pássaros ou a extrema liberdade como no caso dos vanguardistas e em especial, do americano John Cage. Aliás este compositor americano chegou a definir com a sua extrema ironia que “O compositor é simplesmente alguém que diz aos outros o que fazer”.   O fato é que se o compositor não escrever sua obra com extrema precisão, ritmo, dinâmica, agógica, andamentos, vai dar espaço para que o interprete seja um co-autor de sua obra, o que muitos compositores admitem, mas outros como o russo Igor Stravinsky, não. Este ultimo dizia “Minha musica deve ser lida para ser executada, não para ser interpretada”. Complicado…

O interprete, quando não é compositor também, utiliza toda a sua experiência musical para decodificar aquele texto e mostra-lo ao ouvinte. Mas, como podemos imaginar, este interprete tem suas próprias ideias, além da já mencionada falta de exatidão da escrita. Então ele pode abordar aquela partitura e “interpretá-la” da maneira mais livre ou precisa possível. Entres esses dois extremos, existem um cem numero de interpretes, inclusive aqueles que ou mudam completamente a obra ao seu bel-prazer, ou aqueles que são incapazes de pensar. Este se tornam mero repetidores de instruções. O que será então, interpretação? Volto a mencionar o referido John Cage:

John Cage

 

 

“Ela me disse que chegou de surpresa, lá pelas 11:30h da noite e ele disse: porque você não fica para jantar? Seu ato de cozinha, ela diz, era como uma performance. Sem correrias pela sala: tudo estava misteriosamente no exato lugar que sua mão procurava, quando precisava.”

 

 

Finalmente, o ouvinte. Esta é aquela pessoa que, iniciada ou não, também tem suas próprias expectativas musicais. Não imagino que ele chegue ao ponto de se questionar se esta ouvindo o compositor ou o interprete (e há quem justamente tem a sua preferencia por um ou por outro). A menos que o ouvinte seja um estudioso, ou um melômano, este tem a sua própria experiência coerente ou não; tem os seus próprios gostos em relação à um tipo de musica ou outra e finalmente, tem a suas próprias “gravações prediletas”, o que transforma às vezes uma excelente interpretação em um fiasco total por esta não cumprir (traduza-se: repetir) as suas expectativas. Note-se que falamos de um ouvinte. São muitos, e de diversas formações, experiências e culturas.

 

Assim chego à conclusão que esta necessária interação entre compositor, interprete e ouvinte, é muito mais complexa do que parece ser à primeira vista.

Mas é assim que sempre foi, e a musica continua, com suas inúmeras abordagens, a nos encantar a vida!

 

Paulo Porto Alegre

 

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