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Vinil Review
23 maio 2017

“A mente é como um paraquedas, só funciona se estiver totalmente aberta” Joe´s Garage (1979)

 

                                          Joe´s Garage é o 27º e 28º disco de carreira de Frank Zappa. Foram lançados separadamente em 1979, intitulados como Joe´s Garage Act 1 e JG Acts 2 & 3. Foi gravado no estúdio B do Village Recorder Studios, produzido pelo próprio guitarrista, e ainda, usou varias inserções de solos captados ao vivo ao longo dos discos, buscando sempre acomodar alguma parte diversificada ao conceito da musica. Desde Sheik Yerbouti, Zappa estava se embrenhando por caminhos cada vez mais complexos de edição e produção, usufruindo de técnicas já queridas pelo guitarrista, como a “xenocronia” (oficialmente usada desde One Sized Fits All, porém, há controvérsias que a técnica era usada desde Freak Out). O estilo do disco gravitava do prog rock ao jazz fusion, do hard rock à comedia musical, dentre outros estilos sônicos. A peça inteira, dividida em três atos, foi inserida num box set, contendo três discos e mais tarde, pela Ryko Disc, em dois cds nas conhecidas caixinhas apelidadas de fat boy. O musico lançou o disco pela sua gravadora e editora musical Zappa Records, e por se tratar de um projeto inteiramente independente e sem o dedo de uma gravadora (da Phonogram naquele período), o referido tomou para si todas as tarefas, permanecendo com um bom relacionamento com a gravadora que detinha contrato à época.

                                               E 1979 representou um ano produtivo para o guitarrista, pois já havia lançado um disco, Orchestral Favorites, e ainda, o mesmo estava empilhando material para futuros projetos, como o disco ao vivo Warts and Wall e Lather (que foram abortados e o material ganhando outros discos, como You are what you is, Tinseltown Rebelion e Shut up n Play yer Guitar, tendo em vista a complexidade logística do acomodamento das faixas em um único disco, sendo que o ideal seria lançar uma música por lado, o que tornaria inviável o lançamento, tendo em vista a edição das faixas). Os atos de “Joe”, muito complexos, abarcavam todo o espectro musical do universo de Zappa, e todo cuidado era pouco na hora da mixagem e da edição milimétrica, realizada com maestria pelo genial músico. E o conceito imaginado por Zappa inviabilizava mais ainda o trabalho. Trata-se de uma história distópica, narrada por um personagem chamado Central Scrutinizer, que a seu turno contava a história de um adolescente chamado Joe que formou uma banda punk de garagem. Joe estava insatisfeito com o seu relacionamento com garotas e com os desmandos do governo local, haja vista as enormes quantias desembolsadas em prol de sua liberdade, que era monitorada. Ainda, os aspectos religiosos desta dinâmica eram tendenciosos, e a exploração sexual era um regramento cotidiano e realizado por todos como um ato normal. Os desobedientes eram encarcerados e condenados à insanidade

 

Zappa chegou a definir sua história como estúpida, e quase real, pois sua vontade era parcialmente comandada por gravadoras e executivos (especificamente se fala na Warner, duramente criticada no projeto Baby Snakes). Então, o personagem Joe seria condenado por levar adiante sua música, em um conceito que lembra a história de 2112 do Rush. Apenas duas músicas não obtiveram as colagem pela técnica já delineada, sendo esta Crew Slut e a clássica Watermellow in Easter Hay, ambas concebidas em estúdio. Os Mothers que acompanhavam Zappa eram: Warren Cucurullo (guitarras), Denny Walley (slide), Ike Willis (vocais), Peter Wolf e Tommy Mars (teclados), Arthur Brown (baixo), Ed Mann (vocais e percussão), Vinnie Colaiuta (bateria, substituindo Terry Bozzio), Jeff Hollie e Earle Dumler (sax), dentre outros que interpretavam personagens, como Dale Bozzio (Mary), Ike Willis (Joe) e Terry Bozzio (John careca). O cast ainda contava com outros. O teor das letras gravitava entre ilações individualistas, sexualidade e poder em larga escala, em uma critica ferrenha em face de certos governos (o americano era um deles), além da dominância da “masculinidade branca” em um breve, mas contundente referencial ao nazismo e seu sistema ditatorial messiânico, que seria a própria “central” (que na verdade seria um funcionário do governo, mas é certo dizer que ele seja o manda chuvas ao final das contas), com ecos literários visíveis de 1984 e Admirável Mundo novo.

 

Larry, interpretado por Zappa narra que a banda tocava a mesma música repetidas vezes por soar boa aos seus ouvidos em um referencial direto à censura na faixa título. A critica a religião é sublinhada em A Token of My Extreme, que satiriza a cientologia, as seitas new age e a revolução sexual perdida em algum ponto do final dos anos 60, tudo envolto de uma névoa negra totalitária que não deixava brechas. Muito da ficção encarnada do disco deve-se à ascensão de doenças sexualmente transmissíveis, um dos motes do governo para emparedar ainda mais o povo daquele período fictício. Ao final da opera rock, o personagem recupera sua sanidade. A central “escrutinizadora”, então, larga seu megafone e começa a dissipar uma nova ordem mundial. A voz normal do personagem foi feita pelo baterista Steve Gadd, em uma única tomada, em uma sessão que deixou o guitarrista milhares de dólares mais pobre, sendo a sessão de estúdio mais cara da musica popular até então. A Phonogram ao final das contas devolveu o dinheiro a Zappa, pois era ele quem estava no comando da mesa, e sob a tutela da gravadora naquela sessão no estúdio B do Village Recorders.
Sobre os aspectos técnicos do disco, algo do material contido em JG foi projetado a partir de técnicas de overdubs, extensivamente usadas em gravações ao vivo. Zappa aproveitava gravações de jam sessions no palco para desenvolver novo material através da colagem de solos e riffs. Na masterização do disco foi necessário trabalho hercúleo de Nick Glossop e Joe Chicareli, velhos conhecidos do músico, que tiveram que dosar seu tempo e paciência em cima de centenas de metros de fitas com solos, barulhos in natura e vozes, além do instrumental, totalmente dividido e independente, contudo muito extenso.
A sonoridade do disco é de uma complexidade absurda, quase como uma obra de ficção cientifica MUSICAL.

Nada era mais moderno que Joe’s Garage  naquele período,

suplantando até a gravação de Sargent Peppers, Quadrophenia, Dark Side e do futuro The Wall. Blues, jazz, fusion, doo wop, lounge, orquestra, hard rock, progressivo, pop e reggae permeiam os atos.

 

Começa com a assustadora narração de Zappa, devidamente alterada, como em Dumb All over de Your are what you is. Toda a narração é acamada por um instrumental progressivo, com inserções básicas em seu curso. Como uma rock opera, todas as faixas são diversas entre si, sendo que já na segunda, Joe´s Garage, já temos uma sonoridade mais tradicional, puxada para o rockabilly, com certas inflexões aos moldes de Elvis. De inicio já temos aquela inclinação basilar de Zappa, com comédia unificada à ultima parte, que é mais consistente e ágil. A central chega a aparecer para ditar regras, enquanto Joe transita pelo seu mundo crivado de totalitarismo e ditames legais abusivos e cláusulas leoninas ao longo do seu cotidiano. Já no final da segunda música, Joe confronta a lei, e eis que surge quem? A maldita igreja! Catholic Girls trata sobre isso. Zappa traz a tona novamente a musica Jewish Princess de Sheik, com uma citara ao seu final. O vocal alterado aqui novamente é o mote da canção com uma série de personagens, bem aos moldes de um roteiro a la Mash de Altman. O disco prossegue com Crew Slut, Well T Shirt, Toad O Line, Why Does it Hurts When I pee (!!!!!) e Lucille Has Messed up my mind, terminando o primeiro lado com um discurso normal da central. Crew Slut conta o encontro de Joe e a groupie, que lhe presenteia com um belo “head job” atrás do palco, pintando aqui o retrato de onze entre dez shows de rock da década de 70 que se possam imaginar. A faixa é um blues com slide e gaita de boca. No entanto, em seu refrão uma sequência mais dinâmica e hard rock é tocada. Um belo solo de gaita se ouve aqui, de autoria de Craig Stweart. Ao final, a central conta que a orgia entre Mary e a equipe foi grande, em troca de um aparelho televisor. Well Tshirt tem algumas inflexões jazzísticas e por vezes meio funkeadas com aveludados vocais soul (tudo isso em um final com concurso de camiseta molhada com a groupie já conhecida, Mary). Toad O-Line lembra outras faixas de Zappa, principalmente Inca Roads, o belíssimo solo inicial unifica as duas musicas de forma soberba e com um feeling jazz soberbo e único. Partes deste solo foram inseridas na faixa titulo do clássico Shut Up… . Uma belíssima sequência fusion!

 

Uma voz metálica e robotizada se pronuncia em Stick it out. Sy Borg tem um ritmo jazzístico smooth que é ótimo. Novamente a exploração sexual é tratada aqui, aparentemente de forma satírica, mas com certo fundo de seriedade, mesmo com linhas abusivas em um involucro delicado e ao mesmo tempo sofisticado. Obra de ficção mesmo, confirmada pelo belo solo de sintetizador com um efeito flanger. Keep it Greasy existe desde 1974, e era apresentada em quase todos os shows do guitarrista, mas o seu solo foi modificado, usando uma sequência de um concerto de 78, mais especificamente do show gravado no Hammersmith Odeon, e trazido ao bojo pela colagem. O referido show foi relançado em um box em meados dos anos 2000, sendo um item essencial para admiradores do mestre. A faixa muito ritmada e agitada é um dos destaques deste ato, em um momento destruidor e arrepiante. O solo, como de praxe, é abrasivo e naqueles moldes arrepiantes e inquietantes do guitarrista. Zappa exagera na dose fusion em um dos maiores momentos solistas desta fase do disco. O ato 2 encerra com Outside Now, em uma conclusão psicodélica após o agito nada brando de Grease, e traz um solo totalmente modificado por efeitos, mas sem perder a ternura do momento.

Outro momento jazz fusion experimental que chega a lembrar o Mahavishnu Orchestra.

A parte final começa com He used to cut the grass, com sequencia em Packard Goose – e seus 12 minutos com solos novamente destruidores e sequencias de Collaiuta divinas- fechando com um dos maiores clássicos de Zappa, Watermellow in Easter Hay, com seu solo clássico e eterno, que foi gravado especialmente para este momento de êxtase, tal qual uma sequência de trilha executada por Ennio Morricone que vai sendo construída em escalada para o momento de pico. Como dito anteriormente, Watermellow e Crew Slut foram os únicos casos em que não houve colagens. O solo em duas partes com citara e guitarra é um dos mais exemplares de toda a carreira de Zappa, mesmo com o destruidor e majestoso projeto Shut up n Play Yer Guitar que seria lançado um par de anos depois.

O jogo de luz e sombras desta faixa é uma das coisas mais belas, românticas e dramáticas que se tem noticia no mundo da música,

sendo que nem mesmo Page, Gilmour (com seu solo em Confortably Numb do mesmo ano), Beck e Clapton poderiam suplantar. Seu inicio com a central divagando é uma das mais lindas introduções de música que se pode imaginar. E ao mesmo tempo assustadora, tamanho a frieza com que é dissipada. Conceituar como arrepiante é pouco. A vicissitude sensorial da faixa atinge um nível de dramaticidade que deveria ser experimentado por todos os que se consideram humanos.

Ao final desta análise (e devidamente arrepiado e com os olhos marejados), não saberia nem como conceituar tal música, A Little Green Rosetta finalmente conclui o ato. O disco teve dois singles, Joe´s Garage e Stick it Out, mas quem brilhou por muitas vezes nas transmissões de radio foi Watermellow, extensivamente elogiada por críticos especializados, que finalmente vinham algo positivo em Zappa. Mesmo assim, as criticas acerca do disco foram confusas, umas aventando que seria um dos melhores discos de Zappa e outras o destroçando tendo em vista o conteúdo quase pornográfico das letras e das criticas nada salutares a sistemas governamentais, american way of life e ao catolicismo. Mesmo com a censura e a PMRC absorvendo a paciência de Zappa e batendo em sua porta furiosamente, a sua saga continuou de forma eloquente por mais discos e mais criticas.

Muitos jornalistas “especializados” dissiparam que JG era dramático, mas nada contundente e sem conteúdo! Muitos fizeram alusão ao filme clássico de Copolla que fracassou no mesmo ano, o chamando como “Frank Zappa´s Apocalipse Now”. Vinnie Colaiutta foi premiado por varias publicações e ranqueado como um dos 25 bateristas mais técnicos de todos os tempos. O disco ficou ranqueado em numero 25 na tabela Billboard em seu ato 1 e no ato 2 em numero 57 no mesmo pool.
Joe´s Garage é sem duvida um dos maiores e mais brilhantes discos de Frank Zappa. Supera a outra famosa opera rock lançada em 1979 em termos conceituais e artísticos e prova que Zappa, SIM, sempre esteve certo em sua visão musical. Além disso, é um dos discos triplos mais brilhantes do período dourado do rock n roll. Quem não gosta de Frank Zappa passe muito longe desta obra prima musical.

Poderoso, pesado, melodioso, contundente, belo, organizado, clássico, e obrigatório ao extremo! Isso é Joe´s Garage!

 

Eduardo “Rusty James” Macedo

Publicado em 14/04/2014 no numero 407 da série álbuns obrigatórios do grupo do Facebook Rockpedia.

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