Post Exclusivo

Vinil Review
29 maio 2017

Performance III – Conteúdos

Vamos discutir hoje sobre os conteúdos de uma performance musical. Os conteúdos podem ser técnicos, musicais, interpretativos ou a que chamaremos englobando uma série de conteúdos menores, outros conteúdos.

Conteúdo Técnico

Este conteúdo refere-se à parte mecânica do instrumento musical, no caso, o violão. Definimos então: técnica e estudos.

A princípio técnica abarcaria todo o trabalho construído em cima de uma postura relaxada, com o fim de se obter independência de dedos. É importantíssimo, mas pode esconder algumas armadilhas… A principal delas é a extrema confiança que o estudante deposita nesta técnica, dedicando-se muito mais a ela do que ao estudo da obra em si.

A técnica tem como objetivo a preparação para se abordar mecanismos complexos a fim de que, no momento do estudo da obra, facilite e abrevie o tempo para o domínio da passagem complexa. No entanto, antes dela, existe um mecanismo básico em cima do qual são trabalhados os exercícios. Se trabalharmos este mecanismo básico dominaremos qualquer exercício técnico, ou seja: torna-se desnecessário o trabalho de horas com os mais variados exercícios (alguns absolutamente estapafúrdios!).

Se trabalharmos arpejos, notas repetidas, digitações e mudanças de posição, estaremos trabalhando o básico para fazer qualquer musica.

Estes exercícios a princípio são conceituais, ou seja, precisamos aprender o “como fazer”. Por isso devem ser estudados muito lentamente e com toda a atenção. Só depois dessa fase, faremos o trabalho de independência de dedos, o que significa aumentar pouco a pouco o andamento.

O que chamo de Estudo, é basicamente uma aplicação pratica deste mecanismo em obras musicais que trabalhem em especial determinada dificuldade. Pode ser, sem problema algum, substituído por músicas. No entanto existem estudos tão incríveis técnica e musicalmente, que seria uma pena não tocá-los: lembro-me aqui em especial dos Estudos de Fernando Sor e Heitor Villa-Lobos.

Conteúdo Musical

Este conteúdo refere-se ao conhecimento musical. Quanto mais o possuímos mais entendemos o objetivo final de nosso trabalho de performer.

Assim, conhecer harmonia, contraponto, forma, é essencial para a interpretação. Incrível saber a diferença da maneira de se interpretar um Pedal de tônica de um Pedal de dominante numa obra de Bach por exemplo. Um significa afirmação da tonalidade e o outro, um aumento de tensão!

Conhecer harmonia e contraponto também é essencial no estudo de obras polifônicas que se fossem executadas sem este conhecimento, redundariam numa grande confusão de vozes.

Conteúdo Interpretativo

Aqui nos referimos à maneira objetiva de se fazer mudanças de dinâmica, agógica, articulação, fraseado e estilo.

É importante saber controlar o aumento de tensão num crescendo, assim como a diminuição de tensão gradativa num decrescendo. As mudanças de tempo nos rallentando, acellerando e rubato são algo a se estudar muito para que não soem irregulares. Dominar no violão as articulações: legato, portato, stacatto e martelatto é de extrema dificuldade e merece uma dedicação aprofundada. Afinal, esta é a “cor” da musica. O fraseado tem a ver com a “pontuação” na escrita. Se não for muito bem estudado ficará incompreensível. Finalmente o estilo é o conhecimento da maneira geral de se tocar obras de períodos diferentes com coerência e sem maneirismos.

Outros Conteúdos

Podem ser muitos: memorias afetivas, imagens, ligações literárias, pictóricas ou coreográficas e têm um caráter absolutamente pessoal.

Encontra-se aí a tão falada intuição que alguns atribuem a uma iluminação, uma inspiração divina, mas que na realidade nada mais é do que o produto final de uma longa experiência auditiva e cultural.

Por Paulo Porto Alegre

 

Recorded for Movimento Violão 2012 at Teatro Minaz (Ribeirão Preto – Sp – Brazil).

Foto de capa:Paulo Porto Alegre_PB ©Christian Maldonado

Comentários

Comentários

|