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Vinil Review
05 junho 2017

A Segunda Gênese de Peter Gabriel. MELT-1980

O disco conhecido como Melt ou como III, é o terceiro disco solo do ex-vocalista do Genesis, lançado em 1980. Os primeiros discos (principalmente este) já davam pistas do que seria a fase world music do vocalista. Mesmo com o teor experimental dos primeiros títulos, tais obras foram essenciais para o delineamento do futuro de Gabriel como musico, e principalmente, como artista solo, se desvencilhando de forma definitiva do status legendário de ex musico de um dos baluartes do prog rock. Gabriel se cercou dos mais renomados músicos para a confecção de Melt, um deles, o respeitadíssimo Robert Fripp. Assim como os outros discos, Melt tem uma sonoridade meio obscura e com uma tendência ao rock progressivo, com uma alta mixagem da percussão, sem o uso do címbalo, compasso rítmico desenvolvido por Phil Collins, chamado de gatted drums. A batida foi desenvolvida em estúdio por Collins, Steve Lilywhite e Hugh Charles Padgham, renomado produtor de musica eletrônica e de bandas como Genesis, The Police e do atual vocalista do Genesis.

Inclusive, os primeiros discos de Collins usufruem desta técnica, que comprime o som da bateria e usa sua reverberação como sonoridade principal (escutem In the air Tonight de Collins, ela ilustra perfeitamente o efeito). Este disco foi produzido por Steve Lilywhite. O álbum foi gravado no conhecido estúdio Townhouse em Londres. Além de Collins na bateria e Fripp na guitarra, participaram do lp, o percursionista e batera Jerry Marota, Morris Peart também na bateria, o baixista Tony Levin, Kate Bush nos backing vocals, Dave Gregory na guitarra e Larry Fast nos sintetizadores. Gabriel também toca quase todos os instrumentos ao longo das gravações. A capa do disco foi desenvolvida pela Hipgnosis e é de uma beleza plástica raríssima, chamando a atenção na época pela simplicidade bizarra, mas de grande efetividade, ainda mais se for considerada a técnica prosaica usada.

O disco começa de maneira lenta com Intruder, e dá uma pequena acelerada com No self Control. Intruder, com sua qualidade distorcida se mostra uma faixa de abertura perfeita para o album de 80, com toques mais progressivos. No Self Control acelera um pouco o ritmo, além de contar com um dramático vocal de Gabriel. A percussão também se destaca. A terceira faixa – Start – introduz I Dont Remenber, e em um pequeno espaço de tempo de 01:19 minutos consegue transmitir dramaticidade, tristeza e uma ternura que são únicos. É uma das músicas introdutórias ou de interlúdio mais lindas da história do rock n roll, e apesar de contar com Fast e Gabriel nos sintetizadores, Levin no Stick e Dick Morrisey no sax, parece que trata-se de um único instrumento com um colorido além dos padrões descritos por notas musicais. Prova que a musica, independente da duração, é regida pelo coração e pelo cérebro, tendo em vista a gama de sensações que a peça transmite. E é a introdução perfeita para I dont Remenber que foi um single de mediano sucesso, inclusive ressurgindo no disco ao vivo de 83 em formato de vídeo e de single. A faixa começa forte com um riff distorcido de Fripp e pelo stick de Levin, que dava o andamento orgânico perfeito à faixa.

Falando em Fripp, o guitarrista manteve-se ocupado naqueles anos que precederam a desativação do King Crimson. Trabalhou ativamente com Bowie, Brian Eno, e no desprestigiado disco Sacred Songs de Daryl Hall, além de seu álbum solo Exposure (com Peter Hammill) e com a banda americana Blondie. Vale frisar que I Dont Remenber já existia desde 78, e era presença não tão constante nos concertos do vocalista. O disco prossegue com belíssima melodia romântica que logo é cortada pela empolgação dos percursionistas em Family Snapshot, mas logo retoma seu andamento natural progressista com notas precisas de piano de Gabriel. Novo destaque para o vocal de Gabriel, em grandiosa forma, que parece vivenciar cada linha da letra. In Through the Wire que fecha o lado A é prova disso, e conta com um refrão empolgado do vocalista.

O disco abre seu lado B com a famosa Game Whitout Frontiers, que teve duas versões diferentes graças a precisão de Fripp em seus solos.

Uma versão alcançou as paradas americanas e outra fez sucesso no velho mundo. Not One of Us e Lead a Normal Life trazem um clima mais místico, com a profusão do padrão da percussão adotado por Collins, Marotta e Peart. A épica faixa que fecha o disco, Biko, já trazia um pouco da irresignação de Gabriel sobre as celeumas do mundo e o teor político da faixa era sentido em cada frase da canção. O ritmo compassado procura passar as sensações de sua letra bem engendrada, que falava do ativista anti apartheid Steven Bicko. Musica de protesto de respeito. Ótimo fechamento para um disco excelente de um dos baluartes do rock setentista, já ciente do que queria de sua carreira, e provando que a sonoridade de sua antiga banda havia ficado pra trás de maneira definitiva. Mesmo diante de um álbum tecnicamente perfeito e arrojado, com sonoridade obtida por meio dos sintetizadores mais modernos, as vendas não se mostravam tão satisfatórias, e ficavam aquém da zona de conforto econômica alcançada pelos colegas de Genesis.

Tanto que na época que o vocalista faliu (1982), uma apresentação única no Milton Kennie Bowl foi orquestrada com a formação clássica do Genesis, e Gabriel praticamente teve que ser arrastado para o palco, já que não era muito favorável à ideia de se juntar ao seu ex grupo. A verba foi revertida em favor de Gabriel e seus débitos. Em 85, começou a gravar o seu disco de maior sucesso comercial. Gabriel na época não buscava alçar grandes voos comerciais naquele período, mas mostrar fundamento conceitual e lírico em sua nova jornada, que julgava ser a mais madura, mesmo com um disco excepcional como Lamb Lies Down on Broadway no curriculum. Muitos diziam na época que Gabriel usufruiria de todo seu arsenal Genesis para construção de seu material solo, e acabou encontrando um foco de sofrimento por ter integrado uma das bandas mais bem sucedidas inglesas. No entanto, conseguiu absorver o estigma e converte-lo em algo positivo e determinante de seu futuro como musico independente.

Tal fato espelha sua construção musical em duas trilhas sonoras: Birdy e Passion, de 84 e 88 respectivamente. A musica experimental e embasada na world music permeou os sulcos dos referidos, em dois momentos fulgurantes na discografia do vocalista.

Esqueçam a fase MTV de Gabriel!!! Deem atenção aos quatro primeiros discos solos, que demonstram que Gabriel poderia ditar as regras de sua própria vida a partir de então.

Melt prova por formula simples que apesar de seu background musical riquíssimo, o segundo nascimento de Gabriel mostrou-se um dos mais importantes eventos de sua carreira. Além do que, não existiria So se não existisse Melt. A ideia de libertação artística gravita nestes ditames, pois se prender a uma formula fabricada e bem sucedida comercialmente não configura no ideal de certos músicos visionários em qualquer esfera musical que se tenha noticia.

Eduardo “Rusty James” Macedo

 

MATÉRIA PUBLICADA NO GRUPO SECRETO DO FACEBOOK ROCKPEDIA, da série Álbuns Obrigatórios.

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