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Vinil Review
08 junho 2017

“Miles apenas ligou e disse que o álbum deve-se chamar Bitches Brew. Por Favor, avise-os!”

Bitches Brew é um disco clássico de estúdio gravado por Miles Davis no ano de 69. Logo após a conclusão e lançamento de In a Silent Way, Davis e um grupo clássico de músicos se reuniu para a gravação do retumbante disco duplo que é focalizado no presente momento. Foi produzido por Teo Macero que produziu o disco anterior e lançado em Abril de 70. Desde In a Silent Way, Davis não mais teve sossego da mídia especializada que estava refugando seu trabalho que misturava rock, funk, ritmos latinos, psicodelia e o jazz, em um mix que se convencionou chamar de jazz fusion. Muitos reportam que jazz fusion seria a mistura de jazz com o rock n roll, contudo, tal dinâmica não se faz verdadeira, já que Davis se influenciou por trabalhos mais voltados para o funk, como James Brown, Sly and Family Stone e sua namorada naquele período, Betty Mabry, ou Betty Davis, que de uma forma ou de outra influenciou na imagem do musico. E além destes citados, CLARO, Jimi Hendrix, que no final de seu período neste plano se aventurou por uma sonoridade mais funk e soul. O jazz rock era a especifica mistura de rock com jazz sem interferências sonoras. Davis acompanhou toda esta revolução de perto, mantendo-se atualizado ao set list do Festival de Woodstock (principalmente em razão dos shows de Hendrix e Stone). Mais adiante, Davis realizou uma mistura mais ampla, incluindo ritmos latinos e experimentalismo eletrônico, principalmente no que tange aos guitarristas que foram utilizados em suas gravações. A banda que acompanhou Davis fora dividida em 03 sessões especificas, em 19 a 21 de Agosto de 69, contando com Joe Zawinul, Wayne Shorter, John Maclaughlin, Bernie Maupin, Chick Corea, Dave Holland (baixo), Harvey Brooks, Lenny White, Jack DeJohnette e Dom Alias e Airto Moreira.

 

A banda usava dois baixistas e dois bateristas para criar um efeito estéreo em estúdio, usando ainda um baixista acústico sobressalente. A sala de gravação era dividida em dois “territórios” para o melhor posicionamento dos músicos, mais ou menos como foi a configuração na apresentação da Ilha de Wight, com Chick Corea no lado esquerdo e Keith Jarret no lado direito, pilotando os pianos elétricos e demais teclados. A guitarra de Maclaughlin também foi replicada e reproduzida nos boxes juntamente com os integrantes da outra banda. Desta semente germinou um estratagema que foi muito utilizado por Davis neste disco, o uso do reverb, que aumentava a amplitude do som do trompete, provocando um efeito estéreo totalmente diferente e com características psicodélicas (em plena efervescência do surgimento do prog rock). Ainda, a gravação mais agitada de Bitches fez com que o ritmo das faixas fosse mais acelerado e ensaiado após a criação das peças principais, abandonando um pouco a característica primordial da improvisação. Davis sabia exatamente como queria suas musicas, que foram gravadas em grandes blocos para posteriormente serem remontadas e mixadas em estúdio. As faixas mais rápidas utilizavam um ritmo urgente e com grande desempenho dos sopros de Shorter e Maupin, além de Davis que apesar de chefão absoluto e irresoluto permitia que outros instrumentos entrassem antes dele. Tal dinâmica desafia a gravação analógica da década de 60, e a sonoridade deveria de ser expandida para além do efeito estéreo, razão pela qual dois bateristas e dois baixistas foram usados, como já referido. Tal técnica permitia que a musica pudesse ser modificada em termos de tempo e sessão rítmica à bel prazer de Davis.

 

 

A gama de ritmos usados, que passava do raga indiano, da simples canção rock e o tempo mais resoluto, próprio da sonoridade sinfônica foram utilizados até as ultimas consequências, sendo que tais sessões de mixagem e produção exigiram horas a fio de trabalho, e pelo tempo exigido das gravações, pode-se perceber que o trabalho foi hercúleo, minucioso e muito bem orquestrado, tudo embasado na experiência de um produtor que apenas conhecia a técnica de gravação e produção de jazz em mesas de som que exigiam mais de 200% da capacidade humana de entendimento e de audição apurada e perceptiva. Ainda naquele período Maclaughlin não utilizava grandes efeitos de guitarra, fato este que foi diverso em períodos posteriores, com o uso de tonalidades cheias de efeitos e pedais. O ultimo disco de Davis com Maclaughlin, Tribute to Jack Johnson trazia uma guitarra mais eletrificada, amplificada e mais pesada, diferente do estilo mais jazzista deste álbum. Não há como definir totalmente este disco.

 

 

 

O disco abre com um épico sobrenaturalmente lento e convenientemente chamado Pharao´s Dance, escrito em parceria com Joe Zawinul, o tecladista que um ano depois fundaria o Weather Report com Wayne Shorter. A faixa alcança os 20 minutos e fecha o lado A do disco. Já na faixa temos um experimentalismo em termos de ritmo quebrado que desafiava convenções jazzistas de todas as vertentes. Não é a toa que os críticos classistas não entenderam a real motivação de Davis com o lançamento de Bitches. O lado B compreende a faixa titulo que beira a meia hora. Nesta faixa mais experimental e soturna pode-se verificar o uso do reverb, que tinha o intuito de introduzir o som de um “martelo sendo pregado”, conforme instruções do próprio Davis. O efeito utilizado é assustador, criando uma espécie de musica nunca antes delineada por nenhum musico conhecido. Os limites do jazz fusion já estavam sendo ampliados, com In a Silent Way e Emergency! de Tony Williams e seu grupo Lifetime, que foi o primeiro a sair da ‘aba” de Davis e montar seu grupo, baseando-se no novo ritmo criado em estúdio. Bitches Brew chegou para desafiar ainda mais os limites pré-estabelecidos. É o que se percebe na faixa titulo, com mistura de rock, jazz e funk, além da psicodelia criada pelo experimento com o reverb, além do piano fender Rhodes, um instrumento que representava uma verdadeira afronta ao jazz tradicional. Davis simplesmente brilha nesta faixa titulo, sempre ordenando sobre o ritmo descompassado criado pelo seu gigantesco e clássico grupo.

 

Quando se acha que nada mais poderia ser criado em termos de sonoridade original, Davis surge com dois bólidos metálicos poderosos que preenchem o lado C. A assombrosa e instigante Spanish Key desenvolve-se em um ritmo totalmente original, aspiralado e perverso, criado por um simples padrão repetitivo de frases musicais. Neste compasso, Davis e banda constroem uma faixa calma, mas com grande inclinação para uma cadencia mais rock, com mais feeling e contornos mais pesados. Como dito anteriormente, é tarefa difícil resumir as músicas deste disco. A faixa é tão popular que foi utilizada no sucesso do cinema da década de 2000, o filme Colateral, justamente na parte quebrada da melodia, que introduz uma nova estrofe. O baixo pesado e a bateria continua, gravadas em separado por dois blocos da banda, soam em uníssimo, formulando uma única cozinha. Neste passo, o ritmo sai mais encorpado, com muito mais vibração e brilho. Não era a toa que Davis gritava com seus músicos em pleno palco (gritava no modo de dizer, já que Davis tinha um fiapo de voz). Contudo, sempre chamava a atenção de seus comandados.

 

John Maclaughlin é a próxima faixa e é mais sincopada, logicamente escrita para o  guitarrista que ficou mais livre para criar alguns solos com sua guitarra Gibson SG. É uma faixa mais curta, embasada em ritmo roqueiro, muito mais contundente e afiado, criada como um único bloco, onde se percebe a estrofe e a parte do refrão guiados unicamente pelos solos e riffs do guitarrista. O lado D abre com Miles Runs the Voodoo Down, com 14 minutos e termina com Sancuary de 11 minutos, tudo deflagrado de maneira dissonante e quebrada pela trupe de Davis. Em suma, Bitches é mais um disco de sensações e cores berrantes, totalmente incertos em um universo de conceitos despidos de pragmatismos musicais. Há quem cite os mais rigorosos e complexos compositores de musica clássicos neste sentido. No entanto, nada de convenção se direciona a este bólido sônico. A audição é recomendada com mente mais do que aberta. O discernimento deve ser preparado com parcimônia. O universo musical já tinha In a Silent Way, obra anterior, contudo, Bitches estava em um degrau acima na escala evolutiva. Tanto que a critica simplesmente massacrou as quatro faces de BB.

 

Mesmo assim, o disco representa a grande virada do jazz tradicional, que já estava estagnado nos estilos “filhotes” do be bop, o cool e o modal jazz, modalidades estas exploradas em Files de Kilimanjaro. Ao final das contas, Bitches Brew foi consignado como o disco mais rentável de jazz da história da musica, ainda com deflagração de um período totalmente novo para a musica negra, coincidindo com o surgimento de Jimi Hendrix, Sly and Family Stone, além da criação infinita de novos grupos sobre o signo de Davis – Mahavishnu, Weather Report, Return to Forever, Shakiti, Headhunters, Lifetime dentre outras bandas, todas fundadas por músicos que tocaram com Davis. Músicos negros mais experientes, até mesmo de vertentes diversas e mais melodiosas, como da Motown também foram incentivados pela nova musica, fazendo com que alguns artistas batalhassem pela sua liberdade criativa a todo custo (Marvin Gaye e Stevie Wonder – principalmente da fase dos sintetizadores são clássicos exemplos).

 

O disco esta ranqueado em 94 na lista dos 500 maiores discos de rock da história da Rolling Stone, além de outras revistas dos gêneros rock e jazz. A publicação Penguim Guide to Jazz, uma das grandes publicações do gênero, que poderia destruir um disco de um musico de jazz em questão de segundos, deu ao disco a cotação máxima, e ainda teceu elogios descabidos. Outro destaque óbvio do disco é sua capa em formato gatefold com uma pintura psicodélica criada por Mati Klarwein, que também criaria outras capas maravilhosas, como de alguns discos de Herbie Hancock, Santana e Earth, Wind and Fire, além de outros. O disco já teve varias edições e relançamentos, sendo a ultima de 2010, que comemora os 40 anos do disco, com dois cds, sendo o disco original e mais faixas bônus, um disco ao vivo gravado em 70 no Festival de Rock de Tanglewood, onde tocaram ao lado de Jethro Tull, Santana e The Who, além de um dvd gravado em Copenhagen no ano de 69, antes ainda do lançamento do álbum. Ainda, a edição traz o vinil duplo em 180 gramas e uma gama de encartes livros, reprodução de publicações da época e outros bônus. Há ainda uma edição tripla com dois cds e um dvd e por ultimo, uma edição dupla normal, com encarte diferente e uma faixa bônus.

Não há como negar, Bitches Brew é um dos discos que quebraram todas as barreiras, paradigmas e limites entre o jazz e outros estilos, colocando Miles Davis diante de um publico mais diverso de sua carreira, com jovens hippies, motoqueiros, roqueiros, metaleiros e nos anos 80, até mesmo uma parcela da geração MTV com sua inclinação mais pop. Além disso é um disco de influencia sonora e força insuperáveis. Tanto a vertente rock quanto a vertente jazz devem conhecer este disco. É um álbum essencial e lançado em um período de expansão para o rock, com deflagração de outros estilos musicais, como até mesmo o progressivo, que pegou um pouco da liberdade artística e musical do jazz para delinear seus músicos mais acostumados à educação musical de conservatórios.

Este disco não é essencial, é PRIMORDIAL.

Rusty James

 

 

Artigo escrito para a série Álbuns Obrigatórios do grupo secreto do facebook ROCKPEDIA em 23/03/2015.

 

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