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Vinil Review
10 junho 2017

Chick Corea e o Ano da Graça de 1972

Gravação dos álbuns “Return to Forever” e “Light as a Feather”

Se você me perguntar quais os 10 melhores álbuns que tive o prazer de ouvir em minha vida com certeza Chick Corea me presenteou com três. Já havia escrito em outra resenha sobre o espetacular álbum “The Leperchaun” e hoje vou falar de mais dois trabalhos do Mestre. “Return to Forever” e “Light as a Feather”, gravados no ano da graça de 1972, o primeiro em Fevereiro e o segundo em Outubro, Chick com 30 anos, vapor intenso criativo.

Ouvir esse seu trabalho foi um marco em minha vida. Foi nessa concepção que pude perceber a dimensão da influência de nossa Música no contexto do mundo jazzístico, uma maravilhosa fusão. A participação de Flora Purim e Airto Moreira foi fundamental fonte de inspiração. Som iluminado pelo contrabaixo de Stanley Clarke com 20 aninhos na época (!!), os sax e flautas de Joe Farrel, que gravou Urubu – Jobim,  e os teclados do Guru Corea. Sim, Guru. Chick Corea tem um dos mais intensos e influentes trabalhos em Música de nossa geração. Completo. Compositor, intérprete, arranjador de mão cheia, estilo incomparável, inquieto, produtivo, com uma das mais belas discografias da História da Música. E está a mil, completando 70 e tantos muitos anos de vida, plantando ainda muitas sementes no mundo da Música.

 

RETURN TO FOREVER

Essa primeira formação como grupo Return to Forever, veio do encontro de Chick, Stanley e Airto no trabalho de Stan Getz, “Captain Marvel”. Já estavam juntos gravando e tocando com Miles Davis. Flora Purim, mulher de Airto e Joe Farrel, completariam o time. E que time. Linguagem inovadora, com nossos ritmos brasileiros servindo de apoio, de tempero para toda a criatividade das composições de Chick e interpretações maravilhosas destes fantásticos músicos.

Logo na primeira faixa do álbum “Return To Forever”, com os vocalizes e grunhidos herméticos de Flora Purim, o pianista nos apresentava essa nova linguagem Electric Jazz, Brazilian Jazz, Jazz Fusion.E foi a primeira vez que ouvi um Samba em 3 tempos, um compasso 3 por 4.

Airto desfila toda sua maestria na bateria mostrando ao mundo, toda nossa riqueza rítmica e em “Sometime Ago”, o mais doce e puro Baião de nossas raízes.

Uma das músicas mais tocadas deste álbum é “La Fiesta e, assim como “Spain”, do álbum “Light as a Feather”, também gravado pelo mesmo grupo, cristaliza e celebra com Música sua descendência espanhola.

Toquei muito essas músicas com Nico Assumpção no saudoso Bar Penicilina em São Paulo na década de 80.

Tornaram-se standards obrigatórios em nossas apresentações e sempre fechavam os sets.

Gosto muito de ouvir Cristal Silence na madrugada. O sax soprano de Farrell, o Fender Rhodes de Corea e as percussões de Airto fazem da Música, uma Oração. Divino. Maravilhoso. Experimente.

 

LIGHT AS A FEATHER+

“You´re Everything” inicia o álbum com muita brasilidade. Um tema com Airto usando suas vassouras em um samba rápido, cheio de nuances, um linda melodia flutuando em uma característica harmonia e riffs “coreanos”. A voz de Flora fez com que o trabalho fosse mais divulgado e tocado em Rádios FMs, dando muita divulgação e muitas premiações aos brasileiros como diversos Grammys, e constantes destaques e premiações nas revistas especializadas Downbeat e Rolling Stone.

“Light as a Feather” pode ser chamada de Bossa Nova, um samba lento cheio de leveza e suavidade como sugere o nome. Você que é músico vai adorar a dobrada de ritmo que a banda executa no solo do chefe, muito bom, vai para um Jazz “da hora” como comentou meu aluno aqui. Música de Stanley Clarke com a letra de Flora Purim.

“Captain Marvel”, de Stan Getz, ganha uma roupagem nova com Airto tocando um baião rasgado, rápido na bateria, aberto, dobrando a gravação com agogô e efeitos de percussão, tudo muito novo para os ouvidos dos “jazzófilos” da época.

E o que falar de “Spain”? Talvez a composição mais conhecida e tocada de Mr. Corea. Um Hino do Jazz, uma canção executada por muitos músicos “around the world”, com muitas versões no Youtube. O ritmo básico executado pela cozinha Clarke/Moreira nos remete a mais pura brasilidade em sua concepção e acentos característicos. O trabalho e os solos do jovem Stanley Clarke, clarearam novos horizontes para o contrabaixo moderno. Um beijo ao grande Rubinho Ribeiro que interpreta e canta “Spain” como poucos.

Álbuns antológicos que pude degustar, me maravilhar e aprender muito. Até hoje um alimento para minha alma. Estão no meu celular e na VR Rádio FM. vinilreview.minharadio.fm

Boa viagem.

Duda Neves

 

 

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