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Vinil Review
11 junho 2017

Tempestade elétrica no Central Park

 

A primeira formação da Mahavishnu Orchestra parecia uma reunião da ONU. Jonh Mclaughlin da Inglaterra, Billy Cobhan do Panamá, Rick Laird da Irlanda, Jam Hammer da Checoslováquia e Jerry Goodman dos EUA.bTodos com diferentes tipos de formações musicais. O curioso é que com exceção de Billy Cobhan, esses nomes não foram a primeira escolha de John M. Jean Luc Ponty era a primeira opção para o violino, Tony Levin (Gary Burton) era a opção para o baixo e Larry Young era a opção para as teclas.

 

Essa formação fez sua estreia em Nova York em 1971 e a interação foi instantânea, havia uma ligação forte entre os músicos, uma unidade, um objetivo comum e acima de tudo, eles acreditavam estar em uma missão, havia algo de sagrado na música que faziam, definitivamente não estavam lá pelo passatempo e John Mclaughlin principalmente levava isso muito a sério, era centrado e tinha um objetivo,

fazer de sua música um Instrumento para alcançar uma força superior, para que essa mesma força fizesse dele um “instrumento”.

Depois de 2 excelentes álbuns (The Inner Mounting Flame, e Birds of Fire ) o clima entre os músicos começou a desingringolar. Isso ficou claro principalmente no Trident Studios em Londres onde se reuniram para gravar  o que seria o terceiro disco, o clima estava tenso. Em 1999 essas sessões de gravação foram lançadas no disco “The Lost Trident Sessions. Basicamente havia dois grupos dentro da banda, de um lado John Mclaughlin e Billy Cobhan, de outro Jam Hammer e Jerry Goodman e Rick Laird pendendo de um lado para outro. Ciclos se fecham e novos se abrem, assim é curso das coisas, mas a música permanecia imune dessa vibração pesada.

 

Em 17 e 18 de Agosto de 1973 a Mahavishnu tinha duas apresentações no Central Park – NY. As gravações realizadas no Trident Studios haviam sido postas de lado e decidiram pegar o material gravado no segundo dia do Concerto do Central Park e lançaram Between Nothingness And Eternety.

 

O disco começa com Trilogy e as batidas do gongo prenunciando o que estar por vir. (Imagino a cena do Billy Cobhan reverberando o gongo pelo Central Park). Após um curta introdução da guitarra, entra o tema. Um cartão de vistas da banda que em “estranhos” compassos resume bem a essência da Mahavishnu Orchestra. Teclado e guitarra se alternando como num duelo, não deu para o Jam Hammer. Uma pausa para o violino e o baixo dobrarem a melodia, novo interlúdio e uma tempestade de raios baixa no Central Park eletrizando os músicos e mandando o ponteiro do VU lá pra cima! Mahavishnu toca alto e intensamente!

 

Sister Andrea tem um solo de guitarra com notas dissonantes que dá arrepios. Tudo num ambiente de tensão que só alivia por alguns segundos quando entra a marcação da bateria e daí novamente com o retorno do tema principal.

Dreams é umas das faixas mais intensas, monumentais e impactantes da história do Fusion/JazzRock

e ocupa todo o lado B. Após uma longa introdução “espacial” que te arrasta para regiões remotas, a banda entra de uma maneira energizante, a guitarra faz variações sobre um mesmo riff com o teclado ao fundo fazendo a mesma onda. A banda mais uma vez entra tocando sobre uma base de “Sunshine of your love” num ritmo alucinante. Outra vez a guitarra faz variações sobre o mesmo riff só que agora acompanhado da bateria, a guitarra ataca como um fenômeno da Natureza, contagiando à todos e assim atinge o pico de intensidade na música. O som pulsa forte!  A música acaba e você se sente nocauteado.

Billy Cobhan é um colosso e segura a onda de John Mclaughlin com maestria e muita, mais muita energia. E nas palavras dele:

“No começo não entendi o que John Mclaughlin estava tentando fazer e a música estava exigindo demais de mim porque não havia encaixado meu som ainda. Então costumava gastar toda minha energia e saia bufando, ofegando e isso me assustava. Eu saia do palco e meu coração disparava por causa de toda essa força! Não achava que eu era fisicamente capaz de tocar nesse nível de intensidade e ainda me manter inteiro. Então, de repente, comecei a aprender a estabelecer meu ritmo. Era isso ou morrer !!”

 

“Ao ouvir nossa música, deixe sua vida mundana para trás e adentre ao mundo do som supremo”

Essa mensagem deveria vir estampada na capa do disco! Alguns concertos depois a banda acabou dando início a segunda fase da Mahavishnu Orchestra, agora com John Mclaughlin como band leader incontestável e muito assunto para uma próxima resenha.

 

Uma observação pertinente. Esse disco não merece ser escutado em MP3, YouTube e outros do gênero. Procure ouvi-lo em um equipamento de áudio de qualidade para tirar o máximo que essa gravação pode proporcionar. Irá fazer uma grande diferença, um som desse não combina com compressão, precisa de espaço para se expandir.

 

 

João Carlos Fávaro

 

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