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Vinil Review
14 junho 2017

Performance IV – O estudo das obras.

 

O estudo é parte essencial da performance; existe generalizado o conceito de que se você não gosta de estudar, não tente ser um interprete. Antes de mais nada é muito importante a divisão racional do tempo para estudar. Costumo considerar que uma hora de estudo significa quarenta minutos de pratica e vinte minutos de descanso.

Tocar um instrumento musical é antes de mais nada uma atividade física; nos desgastamos com o passar do tempo. Assim podemos nos vinte minutos de descanso desenvolver uma atividade intelectual para relaxar o lado físico: ler, estudar alguma coisa que não seja o instrumento.

A divisão do tempo durante o dia também é importante. Divido o trabalho a ser feito em três partes: aquecimento, trabalho braçal e manutenção de repertorio. O primeiro é simplesmente o trabalho técnico que tem basicamente a importância de aquecer a musculatura. Depois, estudar o que é mais novo e difícil: já estamos aquecidos, concentrados e é o melhor momento de nos dedicar a estudar passagens difíceis, músicas novas, coisas que deem trabalho e que necessitem o máximo de nós. Por fim, na manutenção do repertorio, vem o objetivo de continuar tocando aquilo que já tocávamos. Como é um repertorio conhecido e já estudado, será necessário pouco esforço, o que é o ideal neste momento do dia.

Existe uma proporção aproximada: o aquecimento nunca deve tomar mais do que 1/5 do tempo disponível. As outras duas fases podemos dividir igualmente em 2/5 do tempo para cada (sempre lembrando que isto não significa a quantidade de obras, mas tão somente o tempo de estudo). Coloquemos aí, sempre, o equivalente ao tempo de descanso: assim, 3 horas efetivamente de trabalho significam 4 horas do tempo disponível. Um boa ideia será nunca ultrapassar demais este tempo diário. Temos uma resistência física que aumenta com o passar do tempo.

 

Tentar passar de 4 para 8 horas de estudo diário, simplesmente porque dispomos deste tempo, significa colocar o dobro de trabalho físico para uma musculatura que ainda não está preparada para isso.

 

Vamos gradativamente aumentando o tempo e estudo e assim naturalmente fortalecendo nossa musculatura. Afinal, ninguém está interessado numa tendinite ou algo pior…

Existem também diversas formas de estudar. Usar o processo utilizado por professores de outros instrumentos pode ser importante.Karl Leimer, professor do grande pianista Walther Gieseking, no período de 1912 a 1917, dividia o trabalho básico de um pianista em 4 partes: treinamento do ouvido, treinamento da memoria, relaxamento dos músculos e posição do corpo.

Os dois últimos itens estão profundamente relacionados e na altura dos acontecimentos já são óbvios. Quanto aos dois primeiros itens, Leimer nos ensina que temos que habituar o nosso ouvido à menor imperfeição detectada e corrigi-la imediatamente. Somos, nesse aspecto, nossos próprios mestres. Quanto ao treinamento da memoria, diz o mestre, devemos nos preparar para tocar tudo, de exercícios a obras musicais, decor, para que nossa concentração possa se manter toda nos movimentos e na interpretação da música. Dividir esta atenção com a leitura do texto musical é desaconselhável. No seu método de estudo, o aluno trabalha profundamente um numero relativamente pequeno de obras.

 

Abel Carlevaro, notável violonista de professor uruguaio, achava que o estudo deveria objetivar dois pontos: o trabalho dos procedimentos técnicos a priori, e o dedilhado racional. Carlevaro nos ensinava que com um dedilhado que eliminasse o máximo de dificuldades e incoerências, teríamos o tempos de preparo da obra muito reduzido.

 

 

 

Podemos nos valer também de dois métodos totalmente diferentes: o estudo livre e o método reflexivo, sendo no primeiro a repetição até o domínio da passagem estudada e o segundo, trabalhado de uma maneira intelectual resolvendo os problemas a serem enfrentados primeiro na mente e depois nas mãos.

Estudar é repetir indefinidamente as passagens complexas de uma obra musical. Mas este repetir constante, tem que ser dirigido para um objetivo racional. Muitas vezes estudamos obras diferentes de diversas maneiras e muitas vezes estudamos a mesma obra de diversas maneiras.

Gostaria de encerrar este artigo com uma frase de Camile Saint Saenz:

 

 

“Estude-se a princípio lentamente, depois mais lento ainda e ao fim, muito lentamente.”

 

 

Paulo Porto Alegre


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