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Vinil Review
13 julho 2017

The House on The Hill: A ousadia de uma luz que desejava brilhar, mas não conseguiu.

House on The Hill é o terceiro disco da banda britânica Audience. Foi lançado em Maio de 71 e teve produção do conceituado Gus Dudgeon (Elton John, David Bowie, John Mayall). Foi gravado no tradicional Trident Studios em Londres. O grupo era formado por Howard Werth (guitarras e vocais), Tony Connor (bateria), Trevor William (baixo e vocal), Keith Gemmel (saxofone, flauta, e clarinete), e também contou com a regência de Robert Kirby. A banda surgiu bem no período mais prolífico do nascente prog rock, e utilizou de maneira soberba alguns elementos básicos do estilo, como as linhas quebradas e tortuosas do jazz, além da sonoridade progressiva mais dark, bem ao estilo do Van der Graff Generator e em alguns momentos trazendo a tona, alguns elementos do Jethro Tull, bem como utilizou da mescla entre o sinfônico e o rock, influência primordial de Beatles e Moody Blues. Sobre estes elementos, a banda jogou luzes e sombras, trazendo ao mundo uma música melodiosa e suave, com momentos mais pessimistas e lentos, quase no estilo downer (mais especificamente na faixa titulo). A mescla de segmentos trouxe a tona o estilo convencionado como art rock, dentro do rótulo do prog rock.

No mesmo período do lançamento do disco, um single estourou nas paradas americanas – Indian Summer – ranqueado em numero 74 na Billboard Hot 100, fato este notório para uma banda que estava fadada a ser um sucesso cult inglês, e que lançou somente 4 discos. A versão americana do disco trazia a faixa como abertura, junto com outra faixa do álbum anterior Friend Friend´s Friend. Assim, a Elektra teve que tirar a faixa original do disco Eye to Eye. Atualmente, a versão em cd de 91, traz o single como bonus track. O vinil foi relançado em 1980, contudo, em formato diverso do original, que era gatefold. No Reino Unido a banda fazia parte do fortíssimo cartel da Charisma junto com o Genesis e outros artistas de renome. A banda tinha apoio total da gravadora americana Elektra, contudo, não aconteceu nos EUA, mercado importante, e apesar de Indian Summer, não fez o sucesso tão esperado, nem com o talento na composição de Werth e Williams. O final da banda ocorreu com a saída de Gemmel após o lançamento de Lunch, de 1972. Mesmo assim, a banda conseguiu deixar de herança um belíssimo disco, com diversas tonalidades de sonoridades, mais notoriamente nas acústicas e com sopros.

O disco abre com a cadência mais contundente de Jackdawn, que mesmo tendo uma sequencia mais farsesca na metade, sempre se manteve solene e apesar de ter um ritmo tristonho e pesado, a faixa possui um feeling bem relevante, e sem grandes exasperações musicais. O vocal alto e característico de Williams é soberbo. As intervenções de flauta e o fraseado repetitivo do sax dão a tônica da faixa, que logo entra em um pesadelo jazzístico sem precedentes, com um solo tortuoso de baixo. Além disso, o baixo entra em conflito com um solo de clarinete que faz remeter aos momentos mais selvagens da faixa introdutória de In The Court of Crimson King. Brilhante épico já de largada. You´re not Smiling é a tocante faixa seguinte. Tem um ritmo mais cadenciado, perdendo toda a postura inicial, bem como o formalismo e rigor técnico da introdução e da imponente faixa titulo. A instrumentação continua em alta, com o uso esmerado de técnicas clássicas do violão. A fabulosa performance de Williams é digna de nota. I Had a Dream é a terceira faixa e traz uma musicalidade dramática e brilhante, quase chegando às raias da balada, mas nunca chegando aos limites da pieguice. É uma faixa de brilhantismo e beleza assustadores. O singelo toque clássico faz contraponto ao vocal agudo de Williams, quase como Roger Chapman do Family. Uma das faixas de Bad Co. de 1974 lembra muito esta faixa, principalmente em seu ritmo, sendo esta faixa Dont Let me Down do bem sucedido primeiro disco do quarteto. A peça central da musica é simplesmente primorosa e emocionante. Clássico absoluto.

Raviole é a próxima faixa, mais efêmera e rápida, com uso de orquestração conduzida por Kirby. Os contrapontos entre o lado acústico clássico e a orquestra é soberbo, com aumento e diminuição de tonalidades em vários momentos da faixa. A faixa não tem vocal, e se trata de uma musica de grandiosa beleza. Nancy, que abre o lado B é mais agitada, com grande condução de baixo, além do sax sempre presente. É uma das faixas mais inclinadas ao rock legitimo, com uma parte central bem mais vivaz e colorida, afastada do prog rock. Eye to Eye é a próxima faixa e é a mais curta do disco, e também bem mais rock, usando novamente a condução firme do baixo, além da flauta, trazendo a mente Jethro Tull, tendo em vista o solo de flauta com um etéreo efeito em estéreo.

A faixa seguinte traz uma leitura bem interessante de I put a spell on You de Jay Hawkins, diverso do ritmo mais blueseiro utilizado pelo Creedence em sua versão. Mesmo assim, Williams usa de algumas pequenas firulas em seus vocais, remetendo ao maluco original da musica.

Finamente chega o momento da titânica e surpreendente faixa titulo, com um solo de sax que permeia a musica em quase sua totalidade.

A banda brinca com diversas linhas jazzísticas nesta peça, deixando a faixa com um clima bem dark, apesar de alguns momentos mais ensolarados. Porém, a faixa traz em si grande parcela de clima noturno e mais macabro, bem ao gosto do King Crimson em sua fase mais intermediaria de meados de 72 a 73, antes da chegada de John Wetton e David Cross. Outra influencia gritante é do Van Der Graff Generator. Além disso, Connor traz para a segunda peça da faixa um solo não tão extenso de bateria, com um andamento bem cadenciado, que introduz uma parte mais “espacial”, como se o ouvinte entrasse em uma surreal dimensão de sonhos. As letras são de um lirismo fabuloso (“The rat becomes a maiden, her soul endowed by satan” – O rato torna-se uma donzela, sua alma dotada por satanás. – “And i wouldn’t go near the house on the hill” – E eu não iria perto da casa da colina). O teor das letras traz o conteúdo fantasioso surpreendente, e em um segmento conceitual não tão aprofundado em uma linha demoníaca ou fantasiosa, o que de fato surpreende pela inversão de expectativas. Simplesmente um primor de musica, que encerra um dos mais belos discos de 1971. A capa interessantíssima e misteriosa foi projetada e fotografada pela Hipgnosis e traz duas figuras em uma casa cheia de detalhes, e quando se verifica o verso da capa, pode-se ver um assassino arrastando sua vitima. Porém, a cena tem seu forte contraponto (acredito que sexual) com o casal da capa da frente, onde se pode imaginar que o sujeito esteja escondendo “alguma coisa” atrás daquele chapéu. Contudo, a belíssima dama sentada mal presta atenção à cena que se desenrola a sua frente (ou na contra capa do disco). Mais uma misteriosa capa da Hipgnosis que comtempla um belíssimo disco e consegue reger um conceito artístico que suplanta a visão comum e a primeira vista.

 

A casa da cena possivelmente é a denominada no titulo – casa da colina – onde o rato se torna uma donzela e sua alma é adotada por Satã. Então, onde estaria o famigerado ser nesta cena? Remanesce tal questão. A capa lembra a arte do disco Cunning Stunts do Caravan, mais no estilo da fotografia, que cada vez mais era usada pela empresa, deixando um rastro de mistério no ar (como nas capas do Ufo No Heavy Petting e até mesmo a bizarra capa de Animal Magnetism do Scorpions). Ou seja,

House on the Hill é um disco de arte pura, do inicio ao fim. Merecia brilhar, mas por razões misteriosas foi se apagando da mente da coletividade, assim como seus criadores.

Contudo, ressurge com força total em tempos atuais, agradando quem realmente é conhecedor da verdadeira boa musica.

Eduardo “Rusty James” Macedo

 

Resenha de número 325 publicada em 12/05/2015, na série Álbuns Clássicos do grupo secreto do facebook Rockpedia.

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