Post Exclusivo

Vinil Review
16 agosto 2017

Um estrondo metálico que vinha das Ilhas e assolou Londres e Filadélfia.

Thin Lizzy – Live and Dangerous (1978)

Live and Dangerous é o primeiro disco ao vivo duplo do Thin Lizzy, e foi lançado em 1978, tendo como produtor o “Midas” Tony Visconti, que já havia produzido Bad Reputation de 77, além de discos clássicos de David Bowie, incluindo Stage, disco duplo ao vivo do camaleão, lançado no mesmo ano do disco de Phil Lynott. Foi gravado no Hammersmith Odeon em turnê de Johnny the Fox e na Philadelphia na turnê de Bad Reputation, no espaço de tempo compreendido entre 1976 a 1977. O disco então foi mixado e montado em Paris, no Des Dames Studios. Uma data em Toronto também teria sido destinada para as gravações, porém nenhuma fita do local foi usada. É considerado por inúmeras revistas especializadas em musica como o melhor disco duplo ao vivo já lançado. Isso inclui manifestações de revistas como Classic Rock, e até mesmo a Rolling Stone. Live and Dangerous chegou a tirar Made in Japan do Purple do seu posto de disco ao vivo numero um da história do rock em meados dos anos 2000, ascendendo ainda mais a aura cult do grupo. Na época, o bando estava com sua reputação muita em alta, em decorrência de seus shows onde urgiam a ressonância roqueira máxima e rápida, e ainda, contava com a apreciação maciça do publico europeu. Já na América as coisas não se estabeleceram, e o grupo ficou conhecido depois do lançamento de Jailbreak, em 1976, passando por cima da época de hits europeus como Whiskey in the Jar e The Rocker.

No tangente aos registros ao vivo, tudo começou com Kiss Alive, lançamento de 75 que vendeu “toneladas” de cópias, e que foi determinante para que as gravadoras vissem o disco duplo ao vivo como um negócio viável e necessário para seus bolsos e para as bandas, pois as grandes companhias gastavam uma nota para gravar um disco ao vivo, com quitação de aluguel do local, unidades moveis e engenheiros de som, além do estúdio para mixagem, edição e colocação dos overdubs (ou tapa buracos). Mesmo assim, há discos anteriores a 75 que se destacaram, dentre eles, Johnny Cash At Folson Prison, James Brown at Apollo, Allman Brothers At Fillmore East, Humble Pie Performance, Uriah Heep Live January 1973, Band of Gypsys, Its Too late to stop Now de Van Morrison dentre alguns outros, que estão colocados nas listas dos melhores registros ao vivo da história do rock. O disco posterior a Kiss ALive que mudou as regras do jogo foi o conhecido Frampton Comes Alive, gravado em parte no Winterland Arena em 75, e lançado no ano seguinte. Scott Gorham conta a história: “Estávamos eu, Phil e Brian (Downey, baterista) no ônibus e começamos a escutar aquela musiquinha (Show me the Way) de Frampton Comes Alive e logo Phil disse que também poderíamos fazer o mesmo e melhor”. Logo, escolheram uma das datas finais da turnê para a gravação. Escolheram assim encerrar a turnê no Hammersmith Odeon, com gravação da performance. Logo, o bando se embrenhou pelos EUA, e acabaram gravando o show no Tower Theater, na Philadelphia. No mesmo ano, um show no Rainbow Theater foi captado em vídeo pela equipe da BBC para transmissão no programa Old Grey Whistle Test. O show foi transmitido apenas uma vez pelo canal inglês, e ganhou uma versão em VHS e subsequentemente em dvd. Hoje em dia, muitas musicas deste show passam no conhecido programa Guitar Heroes em forma de vídeo clip ao estilo MTV.

O quarteto contava com a formação clássica com o trio principal de 74 a 83, Phil, Scott e Brian acompanhados do jovem, irascível e teimoso guitarrista escocês Brian “Robbo” Robertson, que abandonou o grupo após o lançamento desta obra. Ainda, participam do disco o saxofonista do Graham Parker Band, John Earl e um jovem Huey Lewis (sim, o mesmo do sucesso Power of Love) na gaita de boca, no período, integrante da banda de rock Clover. No ano posterior, Gary Moore, parceiro de Lynott em tempos passados, assume as seis cordas para gravar o clássico Black Rose, também com produção de Visconti, sendo este o ultimo trabalho deles com o produtor. “Não aguentava ver aquele cara se matar a cada dia” diz Visconti sobre Lynott, versando sobre sua situação com as drogas. Mesmo assim, o grupo prosseguiu. A banda está minuciosamente integrada. Baixo e bateria em perfeita sintonia, com Downey sempre seguro de sua performance mostrando-se um baterista MUITO acima da média, com pegada firme e vigorosa, que jamais mostrou-se enfadonha e/ou cansada. Downey usava muito bem os dois bumbos, realçando sempre os graves e harmônicos do baixo de Phil. As guitarras também merecem um “a parte”. Assim como as mais famosas duplas de guitarristas, Gorham e Robbo faziam a alegria dos headbangers daquela época, dosando riffs selvagens e proto-metálicos com melodias intrincadas e dobradas, além de solos que iam do simples ao estrondoso, com destaque para os solos cheios de “napalm” de Robbo, e seus gemidos junto ao wah wah. Gorham com seu estilo mais discreto, mas repleto de flanger não ficava para trás e fornecia tanto sombras, quanto luzes. Apesar de ter trabalhado posteriormente com guitarristas renomados como Gary Moore, Snowy White e John Sykes, Robbo foi sua “cara metade”. Mesmo com Downey reportando o comportamento não profissional do grupo dentro de um contingente profissional, é impressionante a destreza do quarteto em cima do palco. Phil Lynott definitivamente não decepcionava! O baixista e vocalista encarava a audiência de frente, sempre com o punho em riste, muita “macho man attitde” aos moldes de Bon Scott, e com seu baixo espelhado a fixar seu eixe de luz em alguma groupie atraente devidamente colocada naquele ponto da audiência.

O disco ao vivo conta com 17 musicas do catalogo do grupo dos anos de 74 a 77, tendo sido expurgada a clássica Whiskey in the Jar e outras que advinham dos três primeiros discos. Apenas The Rocker, do disco Vagabonds of the Western World sobreviveu e fixou-se até aquele ultimo dia da turnê de 76, sendo ressuscitada 7 anos depois, em um dos últimos shows da banda, no mesmo palco do Hammersmith Odeon. Visconty reporta que chegou a desdenhar o esforço do grupo em seu intuito de gravar um disco ao vivo. A ideia do produtor era montar seu estúdio Good Earth em Londres e mixar e produzir o disco ao vivo de Bowie. O fato é que Lynott trouxe pilhas enormes de fitas com gravações do grupo. Foram mais de 80 horas de audição minuciosa para extrair algo daqueles rolos. E o trabalho assim foi feito de forma soberba, e nas piores condições possíveis. Lynott era um imã para mulheres fáceis, groupies, traficantes e um séquito de vermes aproveitadores, que acabou se tornando o “entourage” do momento. Além disso, Robertson se mostrava cada vez mais arredio em estúdio graças ao seu alcoolismo e estava mais interessado em andar com o baixista do Rainbow, Jimmy Bain, e com outros bêbados notórios como Frankie Miller e John Bonham. Neste interim, durante a mixagem, alguns erros nas trilhas de baixo foram verificados, e Phil então é instado a corrigi-las. Segundo Visconti, o baixista então resolve mudar todas as trilhas de baixo das faixas. E logo a seguir, ao consertar uns vocais, o mesmo resolve refaze-lo a integra. Já Robbo e Gorham em entrevistas atuais reportam que as correções foram mínimas no que tange as guitarras e os backing vocals (que foram poucos mas todos refeitos). Então, somente alguns deslizes nas guitarras foram corrigidos. A bateria e a reação da audiência foram mantidas. A dupla de guitarristas se mostra irresignada com a história e negou o fato com veemência de um politico a beira de ser condenado por corrupção. Downey se manifestou da mesma forma, e diz que não presenciou tantas correções como o produtor afirma. Segundo Visconti: “As correções em estúdio eram normais na época, pois ninguém queria lançar um disco cheio de imperfeições. O trabalho no disco ao vivo se assemelhava ao trabalho do disco de estúdio. Precisa de muita atenção. E o álbum ficou excelente.”.

E realmente, a politica das corporações era entregar um disco mais que perfeito. E para isso, era necessário um trabalho minucioso de produção, mixagem e edição. Portanto, grande parte dos discos ao vivo SIM, possuem overdubs (são raras as exceções). E ainda, no caso do Thin Lizzy, Visconti tinha que lidar com o perfeccionismo de Lynott, que exigia um trabalho a beira da perfeição, e o fato de o mesmo estar trabalhando com o álbum Stage de Bowie, o irritava muito, pois considerava que o produtor iria sabotar seu trabalho junto ao Thin Lizzy.  Resultado final: dois discos soberbos, arrolados em 11 entre 10 listas e com overdubs. As qualidades sônicas de Live and Dangerous saltam à audição. O grupo estava em seu auge. No entanto, mesmo sendo um grupo de rock pesado e veloz, o mesmo não era adepto ao aumento de volume nas ultimas consequências, e reservavam uma parcela de seu poderio sônico para as ultimas faixas do show, já com o “jogo” ganho de goleada. Nesta parte do show, o grupo exercitava seu som mais nos moldes do boogie rock, mas com muita audácia e melodia, com faixas como Me and The Boys e Baby, its drive me crazy. Os guitarristas primavam pela limpeza da sonoridade de seus instrumentos, mas não abriam mão do volume necessário, e sempre valorizando as nuances mais melodiosas e espaçadas, bem como, a cozinha priorizava um som mais orgânico, “cheio” e aveludado, mantendo sempre o baixo e o bumbo “no chão”, sempre audíveis e com a energia da vibração sempre em alta. E é exatamente isso que se ouve em L&D. Uma performance de som cheia, muito bem cortada e produzida, que não fere os ouvidos em uma gravação extremamente balanceada entre o sujo do rock e os tons mais cristalinos. É rock n roll puro com status artístico no mais alto padrão, diferente do que se ouve em Still Dangerous, que traz as gravações cruas do show no Tower Theater e diverso do estridente e artificial Life/Live de 84.

O disco abre com Jailbreak, motivando o publico com uma nota de ataque muito cortante e alta. O feeling a partir de então nunca mais é sobrepujado. O disco prossegue com a faixa que foi gênese do heavy metal dos anos 80, Emerald, onde se pode verificar o quão exímio era Lynott no baixo em um dos momentos mais empolgantes da musica, com Gorham e Robbo dividindo seus solos com um solo pequeno, mas contundente do próprio líder, até que o mesmo prossegue com seu fraseado retilíneo, mas nada ordinário. A seguir, Southbound, é oriunda de uma passagem de som do show no Tower Theater, com adição da reação da plateia, estratégia que foi usada em discos ao vivo de Jeff Beck, Steppenwolf e até mesmo no clássico Frampton Comes Alive. O disco prossegue com os hits Rosalie e Dance in the Moonlight (homenagem clara à Van Morrison e sua Moondance), ligando se com o “monstro metálico” de Massacre. Chega um dos momentos mais entusiasmantes do disco. A balada emocional Still in Love whit You encontra seu habitat natural e aqui deixa cunhada a sua versão definitiva. Mais enxuta que a versão do Hammersmith Odeon de 76, a versão de 77 traz dois solos empolgantes e melodiosos, com destaque para o segundo solo, onde Gorham simplesmente arrasa com sua técnica modesta, mas muito enfática e precisa. O site Allmusic em seus anos iniciais chegou a conceituar os dois solos da faixa como os mais melodiosos e dramáticos gravados em um disco ao vivo. Still in Love whit You, uma espécie de blues mais arejado, e alguns jornalistas chegaram à creditada lá como uma espécie de Stairway to Heaven do Thin Lizzy. Com algumas pausas emocionais bem pontuais, a faixa vai se estendendo até a raia dos sete minutos, onde Lynott dissipa toda sua paixão e tristeza em um vocal soul de grande qualidade técnica e veracidade humana. É musica em forma de poesia, com Robbo realizando seu “shredding” no meio da musica, mas com muita pegada e emoção. Já Scott sola de forma mais contida, contando muito mais com o feeling do que com rapidez e técnica. E o espaçamento da melodia transparece de forma soberba, sem grandes arroubos dos efeitos usados contando muito com a condução da cozinha e do ritmo singelo comandado por Robbo que se assemelha a um riff funkeado. E isso no meio do show e do disco.

A bolacha prossegue com o proeminente funk rock Johnny the Fox, passando por clássicos como Dont Believe a Word, e a obrigatória sequencia de Cowboy Song e The boys are back in town, que exaurem o publico. Duas faixas que trazem a canção no formato mais pop aos moldes de um grupo enérgico de rock n roll. E os dois hits incontestáveis são eficientes para espelharem esta realidade. Mostram que as canções simples são as que garantem a vitória neste jogo que se conceitua chamar de rock n roll. Reeling in the Years e Mama Kin são exemplos desta figura de linguagem mais simplória, mas eficiente. O disco prossegue com mais clássicos como o boogie rock Suicide, a destroçante e metálica Warrior, a combativa e poderosa Are you Ready, feita para aclimatar os concertos em cima de uma sequencia simples e pesada, culminando com a poderosa Sha-lala, épico onde Downey deita toda sua energia em um solo de bateria vibrante e destruidor, muito diferente do espetáculo de Cozy Powell e o exagero displicente e lisérgico de John Bonham, se concentrando mais em um segmento aos moldes de Ian Paice, colorido por efeitos flanger, deixando a percussão mais fluida em um efeito que foi usado à exaustão por Peter Criss e Neil Peart.

 

A parte final do concerto e do disco trazem faixas para satisfazer o grupo após os cavalos de guerra, com rocks mais diretos e concisos. Baby Drives me Crazy é um destes rocks que são definitivos. Musica para diversão pura e simples de Lynott, onde ele apresenta o grupo, inclusive o convidado do Clover, “Bluesy” Huey Lewis, que toca harmônica na faixa que poderia ser uma jam session perfeita. A explosão final em forma de uma rave up que deixaria os Yardbirds corados de inveja. É como se uma bomba explodisse no interior do Hammersmith Odeon com a plateia gritando em delírio continuado e extasiante. Esta era a fantasia de rock n roll perfeita, bem aos moldes dos sonhos de qualquer candidato a rock star (status alcançado por Lynott, sendo ele uma das figuras mais “camaradas” do mundinho roqueiro setentista e oitentista). O disco fecha com The Rocker, uma herança do terceiro disco, onde Robbo e Scott emulam o riff espiralado de Eric Bell com grande destreza e propriedade, com a cozinha sempre em alta potencia tal qual um trem desgovernado. O disco termina aqui e com a recepção da audiência sempre em polvorosa, com coros de “more, more”.

Live and Dangerous é realmente um disco de potencial perigoso, e traz um dos grandes grupos miscigenados (mas com base em Londres) dos anos 70 e parte dos 80´s em pleno voo. É um exemplar que serviu de molde para outros discos ao vivo. O Ufo, outra banda cult dos anos 70 também foi incentivada a gravar seu duplo, e se espelhou no exemplo de Lynott, sendo travou uma verdadeira “guerra de baixistas” com Pete Way, digladiando-se na imprensa sobre qual seria o melhor disco lançado. No Sleep till Hammersmith, outro notório disco ao vivo também teve seu molde tirado da “forma” de Live and Dangerous, e mostrou-se um sucesso, atingindo o numero 1 na Inglaterra. O disco de Lynott e cia alcançou o numero 2 das paradas inglesas, ficando atrás da trilha sonora de Grease. Hoje em dia, um verdadeiro culto ao disco ascendeu de revistas, blogs e publicações afins. A receptividade, tanto na época quanto atual sempre foi positiva, apesar da polemica dos overdubs. Tanto que o disco ganhou uma bela edição deluxe da toda poderosa UMC, contendo o disco duplo com dois bônus – Bad Reputation e Opium Trail, gravadas no Tower Theater na turnê de 77, que ficaram de fora do disco – e um dvd com o programa da BBC de menos de uma hora. O single Rosalie e Me and the Boys foi alçado as paradas, sendo que Me and the Boys, que não entrou no disco, mas esta no vídeo, foi oficialmente inserida no box Vagabonds Kings Warriors Angels de 2006. A capa merece uma menção. O movimento da imagem é perceptível, com Lynott se destacando em seu status de lider supremo e máximo da banda, com holofotes focados em sua figura, tal qual a capa de Frampton Comes Alive e de Marvin Gaye Live at London Paladium, só para citar dois exemplos da estética “figure in motion”. Ego, personalidade e identidade captados de maneira perfeita e vivaz por Chalkie Davies. A ideia da face retorcida de Lynott veio da capa vermelhada e sem censura do disco Electric Ladyland de Hendrix.

Lynott provou que estava certo, eles poderiam fazer melhor que Frampton, e o fizeram de modo soberbo. A mistura da potencia encontrada nos sulcos trovejantes de Kick Out the Jams e Live at Leeds misturou-se com a tecnicidade e profundidade das obras de The Allman Brothers e Wishbone Ash encontrando um meio termo de apuro e direção qualificadas. E isso nas piores condições possíveis. O grupo continuou a lançar discos até 83, contudo, jamais superou seu Live and Dangerous, e o palco acabou virando a “menina dos olhos” de Lynott. O rock star irlandês negro ditou as regras. E uma grande parcela de roqueiros seguiu a cartilha a risca com considerável sucesso (vide o Iron Maiden, uma verdadeira instituição do rock pesado, que teve o Thin Lizzy como referencia de melodia, sem falar do cover do Metallica que colocou os holofotes sobre Lynott novamente). O fato de a banda ser relevante e bem sucedida em um período de Ascenção punk, já é prova suficiente da obrigatoriedade da audição. Este disco excepcional também comprova que é possível torcer o nariz para declarações escarradas de que a Irlanda é terra de um certo grupo U2. Acredito que toda a lenda pode ser vislumbrada na Harry Street em Dublin, onde esta afixada a estatua de bronze de Lynott, imponente com seu baixo reluzente e com postura que denota atitude, robustez, ímpeto, autonomia, supremacia, destemor e intensidade, qualidades encontradas em Live and Dangerous.

Eduardo “Rusty James” Macedo

[:]

Comentários

Comentários

|