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Vinil Review
20 agosto 2017

“Passages” by Tom Harrell

São muitos os destaques nessa gravação de 1991 lançada pelo selo Chesky Records, não só musicalmente mas também tecnicamente.(áreas interdependentes para um resultado final que vai  além do satisfatório)

Cheski Records(www.chesky.com) fundada pelos irmãos David e Norman Chesky é um selo especializado em gravações de alta qualidade, evitando o uso de overdubbing e utilizando o mínimo possivel de equipamentos no caminho do som. Seu estúdio localiza-se em NY mas muitas de suas gravações são captadas em Igrejas. Uma dica para conferir o trabaçho deles, são os dois álbuns que eles lançaram do trio Larry Corryel / Lenny White / Victor Bailey, utilizando-se de apenas um microfone para fazer a captação do áudio em gravações na St Peter’s Episcopal Church, New York City . Álbuns artisticamente e tecnicamente irretocáveis.

A filosofia do selo é criar para o ouvinte a ilusão de músicos ao vivo num espaço tridimensional.

Outro destaque dessa gravação é Bob Katz. Engº de áudio e referência em Masterização de áudio e autor do aclamado livro ” Mastering audio”

Passages entrega 10 composições de Tom Harrell, revelando sua faceta de compositor . Sua música possui características de sutilieza, beleza e sofistificação que o colocam na mesma linhagem de músicos como Miles Davis,Chet Baker, Jim Hall .  Passages tem uma sutil influência latina, tendo o brasileiro Café (Edson Aparecido da Silva)  na percursão e o panamenho Danilo Perez no Piano.  Joe Lovano contribuiu com a gravação com o som vigoroso e encorpado de seu saxofone. O disco ainda conta com Paul Motian na Bateria, Peter Washigton no baixo e Cheryl Pyle na flauta.

Todo o álbum é de uma coerência que impressiona, são dez composições que juntas dão a obra uma unidade e uma atmosfera únicas. Tom Harrell fez parte da banda de Horace Silver nos anos 70 ‘ e a influência post bop é sentida aqui mas não deixando de lado o lirismo de seus solos.Tom Harrell trabalhou como sideman em big bands como as de Stan Kenton, Woody Herman, Sam Jones, Mel Lewis e Charlie Haden’s Liberation Music Orchestra e embora esse disco seja executado por um septeto, os arranjos soam como em uma bigband.

Na faixa A Good Bye Wave é notória a influência da bossa brasileira, já na faixa Expresso Bongo são os ritmos caribenhos que se destacam. Em Passages, um belo duo de piano e trompete ,Tom Harrell traz não sei de que profundezas de sua mente, um som mágico que deixa uma impressão duradoura no ouvinte.  Madrigal é uma balada onde os solistas contribuem para a elegância do som. O disco termina com It’s up to Us, música vigorosa, cheia de energia, com solos curtos e precisos.

Não bastasse a qualidade do álbum, conhecer  as dificuldades encontradas pelo músico, não deixa de ser uma lição de vida. Tom Harrell sofre de esquizofrenia, pode-se imaginar a batalha que é executar as  simples tarefas do dia a dia, mas tambérm compreende-se  o poder transformador que é a  Música.  Essa força fica mais clara na observação abaixo.

“Quando ele não está tocando, ele fica prostrado,paralizado, envolto numa silenciosa agonia mas quando chega a hora de fazer seu solo parece que uma corrente elétrica  atravessa seu corpo”. Fonte: The Penguin Guide

A música é a linguagem de Tom Harrell, é impressionante manter uma carreira dessa  forma, compondo  e tocando em altíssimo nível ! Deve-se dar o crédito a sua espósa Angela Harrell, mas isso é um assunto que deve ser conduzido  por especialistas, não é o caso aqui,o que fica é a força que ele tem para seguir em frente.Nas  plavras de Tom Harrell:

 

“Eu não sei quando eu conduzo a música ou quando a música está me conduzindo!”

 

 

 

 

 

 

Muitos artistas do Jazz também  enfrentaram problemas semelhantes e para citar alguns me aproprio da frase utilizada pelo jornalista Jonathan Eig

Charles Mingus já passou um tempo na instituição Mental Bellevue, Bud Powell também já fez sua tour pelos hospitais psiquiátricos, o grande Sun Ra achava que ele tinha vindo de um outro planeta e Thelonious Monk provavelmente veio.”

Enfim, toca o barco!

 

João Carlos Fávaro

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