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Vinil Review
29 agosto 2017

MUITO ALÉM DO PROCOL HARUM E MUITO ALÉM DA PONTE DOS SUSPIROS

Bridge of Sighs é o segundo disco do guitarrista inglês Robin Trower. Foi gravado em 73 e em parte no inicio de 74 e foi produzido pelo ex companheiro de estrada e de Procol, Matthew Fisher. No lançamento atingiu o numero 07 nas paradas americanas. Assim sendo foi certificado com a cotação Ouro em termos de vendagem, classificação esta que prosseguiu nos discos seguintes, For Earth Below (75), Long Misty Days (76) e In The City Dreams (77), todos estes sucessos comerciais nos EUA e também no Reino Unido. Tal sucesso não era novidade na vida do guitarrista, tendo em vista que o mesmo havia integrado uma das mais importantes bandas inglesas da segunda onda da invasão britânica, o Procol Harum. Trower gravou com o grupo os discos Procol Harum (67), Shine on Brightly (68), A Salty Dog (69), Home (70) e Broke Barricades (71), além de dois discos nos anos 90 – Prodigal Stranger e Long Goodbye. Ainda em 70 gravou sob o pseudônimo Liquorice John Death o disco “Ain’t Nothin’ to Get Excited About”, um álbum de rock n roll legitimo dos pioneiros no estilo. Porém Trower começou a se sentir pressionado pelo estilo mais progressista do grupo, característica esta seguida por um numero grande de grupos ingleses como Pink Floyd, Genesis, King Crimson, Moody Blues e The Nice. Como todos podem verificar o período de 68/69 foi prolífico na mistura de sons mais complexos com o rock n roll. Alguns aderiram à mistura com o jazz, outros com musica sinfônica. Foi o caso do Moody Blues e do Procol Harum, que a cada disco investia nas melodias mais complexas.

Mesmo com o sucesso do Procol, Trower resolveu investir em uma carreira solo, já que a menina dos olhos do guitarrista era o blues. Segundo ele:

“Estava em uma posição difícil na banda, e quando há estas diferenças artísticas o melhor é procurar seu próprio caminho.”

Ainda, nas palavras de Trower: “Era visto que Gary e BJ teriam muito sucesso em sua fórmula, e não sendo esta a minha formula, o melhor foi não atrapalhar os caras. Prefiro seguir meus instintos.” (ref: Classic Rock Magazine). Trower saiu após o lançamento de Broken Barricades e de uma apresentação lendária no Festival da Ilha de Wight em 70, onde o grupo já transpareciam certas tensões entre o guitarrista e o líder Brooker. Primeiramente, Trower montou um grupo com Clive Bunker, Frankie Miller, e James Dewar chamado Jude. Infelizmente o grupo não chegou a gravar material em estúdio. O guitarrista então convidou o escocês James Dewar para integrar o seu novo grupo. Dewar era um vocalista poderoso que nunca teve a sua chance de mostrar seu talento durante o período no Stone the Crows, sempre limitado à sua atribuição de baixista e, claro, ao status de musico acompanhante de Maggie Bell, verdadeira estrela dos Crows. Dewar vinha de um estilo vocal derivado do blue eyed soul, assim como Paul Rodgers e Frankie Miller. A semelhança de tonalidades com Rodgers é perceptível, sendo que Dewar é mais discreto. Além da influencia referida, Dewar era fã declarado de Jack Bruce. Com certeza, Dewar é um dos grandes baixistas/vocalistas do rock n roll.

No power trio de Trower, Dewar era impulsionado a mostrar todo o seu poder, além de manter as engrenagens sempre em alta rotatividade com o grande baterista Reg Isidore. Assim em 73 gravaram o primeiro disco do trio, Twice Remove from Yesterday. A sonoridade do trio era totalmente influenciada pela visão de Trower acerca do seu estilo favorito, o blues rock. Neste passo, o som do grupo remetia aos dois power trios favoritos de Trower, o Cream e Jimi Hendrix Experience, que foi a luz guia do musico. Notadamente Trower, Uly Jon Roth e Frank Marino foram dois guitarristas que beberam na fonte hendrixiana e por ali permaneceram. Marino e seu grupo Mahogany Rush emergiu mais no hard rock, impulsionando sua musica mais para o heavy metal e o hard rock, enquanto Trower manteve-se na trilha do blues rock mais trabalhado e técnico. Além disso, o guitarrista investia mais em passagens melodiosas e singelas, simultaneamente a passagens mais rápidas e pesadas, bem ao estilo luz e sombras. Sempre se manteve fiel a sua Fender Stratocaster, que foi modificada e fabricada pela Fender com exclusividade para o musico, além dos gabinetes JCM 900 e 800, com fim de manter a sonoridade padrão e que ficou notória com uma tonalidade única de timbre sônico. Foi um estilo de muita apreciação em solos ingleses, e por um bom tempo, foi também em solos americanos, com apresentações lotadas de costa a costa, além de shows em estádios no período de 77 a 78. Todo o sucesso de Trower foi devido ao seu estilo mais roqueiro, bem diverso ao estilo de sua ex-banda. E Bridge of Sighs traz este estilo em seu ápice.

Day of the Eagle abre o disco de maneira primorosa com um hard rock pesadíssimo e ágil, com a tonalidade de guitarra inclinada à sua influencia maior. O riff exemplar da faixa garantiu que a mesma fizesse parte quase que permanente em todas as turnês. Isidore e Dewar são eficientes em suas funções, ainda mais levando em conta que o baixista cumulava o cargo de vocalista. E que grande vocalista! Dewar com sua tonalidade calma, ao estilo Paul Rodgers, sempre foi motivo dos mais inflamados elogios das publicações especializadas e de alguns músicos.

A soturna, fantasmagórica e arrepiante faixa titulo vem a seguir, e com certeza é uma das faixas mais fortes e emblemáticas do álbum. Remete ao poderoso épico Machine Gun da Band of Gypsys de Hendrix.

É uma faixa cadenciada, com um fabuloso vocal de Dewar. Os efeitos das celestas na faixa deixam a musica ainda mais assustadora e instigante. Acabou virando uma musica cult, e foi usada em trilhas sonoras de alguns filmes hollywodianos, mais notadamente em Rush (uma viagem ao inferno). O solo alcança a magnitude dos riffs que a sustentam, e nem uma nota é desperdiçada. Se alguns herdeiros de Hendrix pecam pelo exagero, outros usam a discrição para delinear sua musicalidade. É o caso de Trower. Clássico absoluto e indestrutível.

In This Place é a terceira faixa, e acalma os ânimos ainda mais. Porém, aqui há uma inclinação para a balada mais dramática, parcialmente embasada no clima do destruidor clássico anterior. O final da faixa chega a ser pulsante. A quarta faixa é mais empolgante, The Fool and Me, um hard rock vigoroso com um riff embolado e estrondoso, com uma condução marcada de Dewar e Isidore. É feeling puro. Clássico absoluto que remete Hendrix de forma direta. Outra clássica faixa vem a seguir com o compasso poderoso de Too Rolling Stone, outro filhote de Hendrix, mas ja com a personalidade forjada do habilidoso Trower. Grande e agil vocal de Dewar. É a faixa mais longa do disco, ultrapassando a barreira dos 05 minutos. Foi presença obrigatória nos shows do guitarrista, sendo o momento propicio para os improvisos e do alongamento da musica explorando outros caminhos. O solo central é estupendo, e a cadencia muda deixando um clima mais arrastado com um segmento arrepiante.

About to Begin é a faixa seguinte, e novamente o clima ameniza, com uma simplória e cativante melodia de Trower. Mesmo com a calmaria instaurada, o feeling ainda é avassalador. São frases musicais simples, mas que dizem muito em sua discrição. Lady Love avança para o final do disco com mais um rock direto embasado em um riff poderoso e raivosamente simples. Como disse certa vez Joe Perry do Aerosmith: “As coisas mais simples sempre foram as melhores!” Tal frase se encaixa no riff simples, porém monstruoso desta faixa. Dewar aqui em grande performance comandando com pulso de ferro a cozinha junto à Isidore. O disco fecha com Little Bit of Simpathy, outro momento clássico do disco, que remete a Hendrix (novamente, não que isso seja um defeito). Um hard rock clássico e abrasivo. Conclusão bombástica de um “pequeno grande” clássico do rock n roll setentista. Trower prosseguiu com sua carreira solo, e nos seus discos seguintes continuou a colher bons frutos, com vendagens significativas.

Inclusive Trower trabalhou com Jack Bruce no final dos anos 70, no projeto BLT e o Truce. Robin Trower sempre teve lugar cativo na mente e na apreciação dos legítimos admiradores de rock. É um exemplo de musico que apesar da adulação quase inexistente por parte de veículos especializados, nunca se abateu por ser um “outsider”, e nunca se importou em entrar para os grandes círculos onde circulavam os sedizentes deuses da guitarra como Clapton, Page, Iommi, Blackmore e outros. Mesmo correndo “por fora” Trower teve uma grande visibilidade no mercado americano e ao mesmo tempo no inglês, mas a passagem substancial pelo Procol Harum parecia que não queria ser cortada em definitivo e a critica sempre arranjava algum pretexto para colocar Trower nos mesmos átrios do quinteto. Bridge of Sighs é um disco simples, feito por três pessoas avidas por rock, e em um espaço curto de tempo conseguiram imprimir uma marca indelével e inoxidável nas enciclopédias do rock n roll. Clássico e obrigatório.

Eduardo “Rusty James”

 

PUBLICADO EM 05/04/2015 NO NUMERO 308 DA SÉRIE ALBUNS OBRIGATÓRIOS DO GRUPO SECRETO DO FACEBOOK, ROCKPEDIA. O PRESENTE ARTIGO TEVE ALGUMAS MODIFICAÇÕES.

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