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Vinil Review
16 setembro 2017

Review…do Vinil

Em 1877 Thomas Edison inventou o fonógrafo, para a gravação e reprodução de sons através de um cilindro. Começa assim a história da gravação e reprodução dos sons, sem necessariamente envolver música.  Em 1880,  Alexandre Graham Bell sugeriu a substituição dos cilindros do fonógrafo por discos planos, como os que conhecemos hoje. Já em 1888, Emil Berliner inventou o gramofone, que a partir de um disco giratório recoberto por zinco, permitia gravar música de forma mecânica. A incrível invenção de Berliner também permitia produzir cópias do disco gravado, em borracha, a partir de uma matriz de zinco, dispensando assim a necessidade de cantores gravarem disco por disco, como vinha sendo feito até então.

Em 1925 surgiu a gravação elétrica, superando a qualidade da gravação mecânica, quando alguns discos começaram a ser comercializados em pequena escala. Em 1933, a inglesa Electric & Musical Industries – mais tarde EMI – inventou as gravações estereofônicas, gravando alguns discos em 78 rotações por minuto.

 

Long-Playing, Long-Play, LP ou Simplesmente  Disco de Vinil!

Em Setembro de 1931 a RCA Victor lançou o que inicialmente foi conhecido como “Program Transcription”, mas é somente em Agosto de 1948 – de acordo com os registros da Columbia Records -, que o primeiro long-playing, long-play, LP ou simplesmente disco de vinil, passou a existir como produto de consumo.

A música gravada eletronicamente, estéreo, de boa qualidade, passou a ser comercializada em larga escala. Em pouquíssimo tempo o vinil, com diferentes medidas e rotações, disputava nas prateleiras a atenção dos consumidores, e como nunca visto antes, a música passou a também ser ouvida em casa! Medindo 12 polegadas e pesando entre 140 e 180 gramas, o vinil nasceu e causou furor, invadindo as programações de rádio, revelando novos artistas e indiscutivelmente alavancando milhões de dólares para a novíssima indústria fonográfica.

No cenário do mundo pós-guerra, atolado em crises de todas as espécies, as gravadoras multiplicaram seus investimentos, apostando todas as fichas no mágico disco negro de vinil. Os mercados norte-americano e europeu apostaram fortemente no vinil, e as gravadoras engordaram rapidamente suas contas bancárias. No crescente mercado para o vinil, músicas de todos os gêneros se revezavam nas prateleiras, e Beethoven, Frank Sinatra, Miles Davis, Led Zeppelin, Michael Jackson e Madona, dadas as proporções, foram alguns dos responsáveis por um mercado musical efervescente em suas respectivas épocas.

A década de 80 foi decisiva para que a indústria fonográfica entrasse em crise, quando as vendas despencaram junto com a criatividade de boa parte dos artistas recordistas em vendas.

 

Compact Disc: Ascensão e Queda

Desenvolvido entre Sony e Philips, o novo formato para comercialização de música gravada foi anunciado ao mercado em 1979. Era o nascimento do Compact Disc, popularmente conhecido como CD.

Em 1° de Outubro de 1982, apostando nesse formato inovador, moderno e mais ousado, a indústria imediatamente anunciou no Japão o lançamento do primeiro reprodutor comercial de CDs, e em 1983 chegavam as prateleiras os primeiros disquinhos prateados para comercialização – muitos deles trazendo como conteúdo apenas lançamentos antigos, ou seja, conteúdos de vinis convertidos para o formado digital.

Nascido com 120 mm e capacidade para armazenar até 74 minutos de áudio, o CD, além do aspecto futurista, prometia também melhor qualidade de áudio, portabilidade e uma virada de mesa no mercado fonográfico mundial. Do outro lado, na contramão da ascensão do CD, muitas fábricas de vinil fecharam as portas e abandonaram em definitivo – principalmente no Brasil – a continuidade em fabricar e comercializar o formato, enquanto aquí nos Estados Unidos e na Europa, a produção nunca foi suspensa.

Em 1984 a Sony, apostando no aumento das vendas de CDs, lançou o Discman modelo D-50. Compacto e leve, o reprodutor de CDs oferecia alta qualidade de áudio e total portabilidade. Contrariando as expectativas da Sony, o D-50 não obteve o sucesso esperado, e os índices de venda de CDs também não apresentaram crescimento.

Antes mesmo que houvesse tempo para o CD se consolidar como formato ideal para comercialização de música, em 1995 foi lançado o CD-R. Instalado em um computador, o CD-R possibilitava gravar arquivos contendo imagens, dados…e também música! Um tiro no pé. Profissionais da indústria fonográfica apontam o CD-R como um dos principais colaboradores para o declínio vertical da comercialização de CDs, uma vez que cópias idênticas e não autorizadas se multiplicaram e inundaram o mercado, desacelerando definitivamente a venda de CDs. As gravadoras de grande e médio porte reduziram o cast de artistas, outras simplesmente fecharam as portas, enquanto por outro lado não havia indícios de nenhuma outra grande idéia que substituísse o CD.

 

A Música na Rede

No início de 2000, boa parte do acervo das gravadoras já podia ser encontrado na internet para dowload, e nesse momento fica claro que a comercialização de música gravada deixava de ser um bom negócio. Milhares de sites passaram a oferecer música para download de forma legal, mas principalmente ilegal. Os artistas passam a comercializar seus produtos diretamente com os consumidores finais, e assim garantir o controle dos direitos autorais e obterem algum lucro com esse novo formato e-commerce.

Já as gravadoras precisavam combater a comercialização desenfreada de música na web, e então negociaram seus acervos com a Apple, que em 2003 lançou o iTunes Music Store. Afinal de contas, a comercialização ilegal de música precisava ser combatida com um concorrente a altura, e a Apple foi implacável.

De lá para cá, players de mp3 e telefones celulares vivem carregados com centenas, milhares de músicas. Resta saber se, o velho prazer de ouvir música, continua o mesmo.

A Volta do Vinil?

Ao contrário de ouvir música apenas nos telefones celulares, há indícios que os antigos formatos também estão sendo resgatados. Os CDs continuam, mesmo em menor escala, sendo fabricados e comercializados, uma vez que é a partir deles que são gerados os arquivos mp3 e AAC. O mais surpreendente é que além dos CDs, os vinis também continuam atraindo o interesse dos consumidores.

Nunca abandonados por DJs e audiófilos, os vinis voltaram a frequentar as prateleiras de lojas e magazines. Nos Estados Unidos, as fábricas oferecem tiragens de 1000 cópias por pouco mais de 3 mil dólares, e talvez esse seja o principal motivo para o aumento nas vendas – de 4 milhões de unidades em 2012 para 6 milhões em 2013. Para 2015 é esperado um crescimento de 47,5%.

Na Europa, o sucesso do evento Record Day Store garante que o vinil nunca deixou de ser um bom negócio, quando ano após ano os números de vendas só aumentam.  No Reino Unido, as vendas de vinil totalizaram 1,3 milhões de libras, e os dados do primeiro trimestre de 2015 indicam que a tendência é de crescimento.

No Brasil, depois de encerrada as atividades em 2007, a Polysom, única fábrica de vinil da América Latina, retomou a fabricação em 2009. De lá para cá, a fábrica em Belford Roxo, Rio de Janeiro, não pára um minuto. Com capacidade para produzir até 40 mil discos de vinil por mês, João Augusto, proprietário da Polysom desde 2009, espera para 2015 um crescimento de até 60%. Portanto, ao que tudo indica, os toca-discos estão voltando a trabalhar a todo vapor, e em todo o mundo!

Confira a seguir, com exclusividade para o Nossa Gente, a opinião de profissionais do mercado fonográfico sobre o CD, o vinil, e o verdadeiro prazer de ouvir música.

 

 

Regis Tadeu (Regis Tadeu – Músico, Crítico Musical)

“Os dois tipos de mídia – CD e vinil – cumprem bem os seus respectivos papéis. As desvantagens do CD estão na redução da arte gráfica e na impossibilidade de reproduzir digitalmente algumas características fundamentais das gravações analógicas, como a ambiência do estúdio e a “tridimensionalidade” do som captado em fitas de duas polegadas, por exemplo. Em compensação, o CD propicia a audição sem qualquer tipo de interferência física, como aquela que acontece entre a agulha e o acetato, e que causa uma série de ruídos com o passar dos anos, depois de audições sucessivas. Sendo assim, cabe ao consumidor ter a plena consciência disso e decidir o que é mais importante para ele durante a audição”.

 

Luiz Calanca ( Proprietário da Loja Baratos Afins)

“Na minha opinião o vinil não  voltou, até porque nunca deixou de existir. O único país do mundo que parou de fabricar  por algum tempo foi o Brasil. Porém, uma fábrica voltou a fabricar anos atrás, e então passa a sensação que o disco de vinil está voltando.Eu prefiro dizer que o CD foi que perdeu o glamour, uma vez que as novas tecnologias se tornam obsoletas em um curto espaço de tempo”.

 

Otávio de Moraes (Produtor Musical)

“Sei que muitos dirão sobre as diferenças sônicas, de qualidade, entre CDs e discos em vinil, mas vou abordar um outro ponto de vista. Pra mim, a diferença mais contundente é a cultural/comportamental. Na época do vinil as pessoas literalmente paravam o que estavam fazendo para ouvir música. Talvez a vida fosse menos frenética, talvez tivéssemos mais tempo. O fato é que, na minha opinião, desfrutávamos mais desse ‘momento’.

Se não gostássemos de uma faixa, a mudança para a próxima não era tarefa simples. Era preciso alguma habilidade. Com a vinda do CD, perdeu-se um pouco da magia. Me flagro ouvindo um álbum com o dedo no ‘skip’. Ruim isso. Parece que não temos tempo para ouvir, no pleno sentido da palavra. Acho essa a grande diferença. Se incluirmos o mp3 nessa análise, fica ainda mais complicado! Outros tempos. Outro jeito de fazer e ouvir música. Nada contra o que rola hoje. Por favor não pensem que não acho bom! Acho ótimo! Dinâmico, criativo, democrático. Vale a memória de uma época que já foi, mas que pelo jeito, teima em voltar”.

 

 

Sallaberry

 

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