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Vinil Review
04 novembro 2017

Minha História com Hermeto Pascoal – Por Zé Eduardo Nazario

Minha História com Hermeto Pascoal e o lançamento do disco “Hermeto Pascoal e Grupo Vice Versa – Viajando Com o Som” The Lost 1976 Tapes. (Far Out Recordings – London 2017)

Havia em São Paulo, por volta de 1969, 1970, na esquina da rua Estados Unidos com Antilhas, um lugar chamado CAMJA (Clube dos Amigos do Jazz), uma bela casa que o vibrafonista Alvaro Brito de alguma forma cedia ou alugava, não sei ao certo, para que funcionasse o clube, que tinha carteirinha e tudo mais, e que era freqüentado por críticos de música, como o Fausto Canova, Armando Aflalo, os músicos do Zimbo Trio (Hamilton, Luiz Chaves e Rubinho), e muitos outros jazzistas da época. Havia uma sala onde se podia tocar ou estudar, acusticamente preparada, com todos os instrumentos, e os sócios faziam “Jam Sessions”, uma alternativa para poder reunir os músicos naqueles dias de noites escuras. Comecei a freqüentar e me associei ao clube. Numa dessas tardes, mais uma vez junto com o Itiberê Zwarg, ao entrarmos no clube, ouvimos o som de um piano, incrível, vindo do pequeno auditório. Ao abrir a porta, a luz estava apagada! Acendemos a luz, e nos deparamos com a figura do Hermeto (da época do Quarteto Novo, cabelo curtinho), que estava estudando. Ele nos cumprimentou e foi logo nos convidando para tocar:

“Ô meu fio, chega aí, vamos fazer um som!”

Confesso que a princípio fiquei meio assustado, pois nunca vira ele de perto, aqueles olhinhos virando, mas fomos lá e tocamos por cerca de uma hora. Depois desse dia, só vi o Hermeto de novo em 1972, quando ele voltou dos Estados Unidos, tinha gravado com o Miles e também os primeiros discos do Airto e o dele próprio, com orquestra, que é um dos meus favoritos. Foi num show do “Mandala”, que um amigo nosso, o arquiteto Zico Priester organizou, e levaram o Hermeto para assistir. Depois fui tocar com a orquestra do Baurú (sax-barítono), num lugar chamado “Garitão”, era um salão de baile enorme que tinha na Barra Funda, ele montou essa orquestra da qual participei, e o Hermeto estava assistindo nesse dia também.

Depois eu soube que o Hermeto estava montando um grupo, gravando um disco no Brasil, mas eu havia sido convidado para ir trabalhar nos Estados Unidos, em Minneapolis, e estava arrumando meus papéis. Foi quando o Nenê, com quem eu já tinha amizade, me ligou dizendo que o Hermeto precisava de um baterista/percussionista para um show em Londrina, no Paraná, substituindo ao Anunciação, que por problemas de saúde havia deixado o grupo. Hermeto tinha acabado de gravar o LP “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, com o grupo original que aparece na ficha técnica. Tive que aprender o repertório em alguns dias, e fiz o show. Ao ir à casa do Hermeto, no bairro da Aclimação, em São Paulo, na semana seguinte, para receber o cachê, ele me fez o convite para permanecer no grupo.

Aceitei prontamente e desisti da viagem, pois trabalhar com o Hermeto era tudo o que eu queria naquele momento.

Nessa época, o Nenê tocava piano em algumas músicas e eu bateria, e quando o Nenê tocava bateria, eu ia para a percussão. A Aleuda, que era casada com o Nenê, fazia vocal. Gravamos um especial para a Tv Cultura em 74, e um para a Tv de Baden Baden (Alemanha). Heraldo do Monte (guitarra) participava também às vezes. O contrabaixista era o Mathias Matos. Hermeto chamava o grupo de sopros a cada show, pois estava numa época de transição e os músicos nem sempre estavam disponíveis, então a cada show vinham diferentes músicos, como o Roberto Sion, Nivaldo Ornelas, Bolão, Carlos Alberto, Costita, Demétrio, Hamleto, Bola, Mazinho. Logo depois vieram o Mauro Senise, Raul Mascarenhas, Zé Carlos, Márcio Montarroyos, Toninho Horta, Oberdan, cujo contato nasceu de uma aspiração do Hermeto e nossa também, de ter um time de músicos mais fixo e com um som mais contemporâneo, a fim de ensaiar, pois com exceção do Nivaldo, os outros eram mais comedidos nos improvisos, e basicamente eram os músicos que gravavam muito em Sampa, então não podíamos contar com um mesmo time.

Isso em 75, já no fim do ano, quando fomos fazer o disco do Taiguara, e o Hermeto já estava pensando em se mudar para o Rio, pois conhecemos o pessoal durante a gravação e achamos que estavam realmente dispostos a criar um lance e tinham tempo para se dedicar aos ensaios, aparentemente. O Festival Abertura da Rede Globo foi em 75, no começo do ano, tinha uma introdução que o Hermeto escreveu para minha “performance” na “Barraca de Percussão” e Orquestra, depois entrava o tema, um baião/xaxado com ritmo e letra, mas pediram para tirar na gravação essa introdução, nesse compacto eu fiz a percussão das duas faixas, “O Porco na Festa” e “Rainha do Mar”, o Lelo ainda não tinha entrado no grupo, e foi o último trabalho do Nenê antes de ir trabalhar com a Elis Regina. Na apresentação do Festival não foi o grupo todo com os sopros, só a “cozinha”, Aleuda (vocal), Nenê (percussão), Mathias Mattos (contrabaixo), Hermeto (pífano) e eu (percussão). Hermeto ganhou o prêmio de melhor arranjo, a gravação foi nos estúdios da RCA em Sampa e foram arregimentados os músicos pela gravadora para compor a orquestra.

Depois do “Abertura” o Zeca Assumpção substituiu o Mathias Mattos e logo depois decidimos, eu e o Hermeto, numa conversa durante uma viagem de trem para o Rio naquelas cabines com beliche, convidar o Lelo para integrar o grupo, isso já no final de 75. O Lelo frequentava os ensaios do Hermeto antes de ser efetivado no grupo, e costumávamos tocar nos intervalos dos ensaios, ou na parte da manhã, pois eu ia cedo para lá e ficava estudando, às vezes o Lelo ia comigo e ficávamos tocando nossas coisas,

e foi daí que o Hermeto optou por convidar o Lelo, pois estava observando o que estavamos fazendo, de vez em quando ele se juntava a nós e ficávamos tocando “free” durante um tempão!

Com a saída do Nenê, a formação ficou com: Lelo, Zeca e eu (a “cozinha paulista” citada em artigos da época), Aleuda (vocal), Mauro Senise, Nivaldo Ornelas, Raul Mascarenhas, Toninho Horta. Participaram também de alguns shows o Márcio Montarroyos, Oberdan, Zé Carlos, e alguns outros que davam canja nos shows.

 

Hermeto sempre tratou os músicos do grupo como parte da própria família. Ele vivia próximo à casa de meus pais em São Paulo. Minha rotina diária era caminhar até a casa dele depois de fazer meus exercícios físicos. Em 1973 eu troquei meu estilo de vida noturna por uma mais saudável, levantando bem cedo e por volta das 9 da manhã já estava batendo na porta da casa do Hermeto. A Ilza, sua esposa, me atendia e me oferecia uma xícara de café, enquanto eu aguardava o Hermeto. Ele sempre gostou de contar suas histórias e eu adorava ouví-las, Depois eu subia para a sala de ensaios para praticar. Depois do almoço, por volta das 14hs o pessoal chegava para o ensaio, que durava até a noite. Hermeto escrevia muitos arranjos para cantores e jingles para propaganda. Ele me chamava sempre para gravar nessas ocasiões por confiar no meu trabalho. Eu sabia o que fazer e gravava principalmente como percussionista.

 

Os concertos ao vivo eram um arraso. Eu me lembro de um deles no Teatro Municipal de Campinas em que o empresário não contratou ninguém para fazer a sonorização. Hermeto pensou em cancelar o evento e os instrumentos ficaram dentro das capas no palco, mas vendo o teatro lotado ele entrou, fez um solo de piano e começou a chamar os músicos. Fomos entrando e tirando os instrumentos das capas, fazendo um concerto improvisado que levantou a plateia.

Em 1976 fomos ao Estúdio Vice-Versa em São Paulo e gravamos de forma independente 46 minutos de material, que acabaram nunca sendo lançados.

Nessa mesma época houve um show do Teatro Bandeirantes, com Nivaldo, Mauro, Raul e Zé Carlos. O Hermeto acabou se mudando para perto dos pais, no bairro carioca do Jabour, e ainda continuamos por um tempo indo ao Rio para ensaiar e para shows no MAM e no Teatro Theresa Raquel, no fim de 76, permanecemos até o começo de 77. Com o trabalho do Grupo Um já em andamento…

 

                                                                                                                            A GRAVAÇÃO

 

Para a gravação em 1976 no Estúdio Vice Versa, de propriedade do Maestro Rogério Duprat tínhamos a “Cozinha Paulista” com Lelo Nazario, Zeca Assumpção e Zé Eduardo Nazario e os convidados Nivaldo Ornelas, Mauro Senise, Raul Mascarenhas nos sopros, Toninho Horta na guitarra além dos vocais da cantora Aleuda. Gravamos 4 músicas, uma das quais, Casinha Pequenina com a duração de 26 minutos. Durante a mixagem, eu e o Lelo pedimos uma cópia em fita de rolo que guardamos em nossos arquivos. Com o passar do tempo, foi necessário digitalizar o material pois a fita iria inevitávelmente se deteriorar.

Como o Hermeto se mudou para o Rio de Janeiro em 1976 e nós da “Cozinha Paulista”, Lelo, Zeca e eu não tinhamos planos de nos mudar para lá, nossa permanência em São Paulo inviabilizou a nossa continuidade e assim esse trabalho não foi lançado, ficando guardado por quatro décadas, até que em 2016 o produtor Joe Davis da Far Out Recordings de Londres entrou em contato comigo dizendo ter ouvido trechos da gravação que estão na “Rádio ZEN” em meu web site www.zeeduardonazario.com e se interessou em saber mais a respeito, o que levou a uma negociação com o próprio Hermeto, que aprovou o material remasterizado pelo Lelo, levando à realização do presente álbum, “Hermeto Pascoal e Grupo Vice Versa – Viajando Com O Som”, que teve o lançamento mundial em Londres no dia 3 de novembro de 2017.

Zé Eduardo Nazario

 

                                                                                                                             REPERCURSSÃO NA IMPRENSA 

ENTREVISTA DE HERMETO PASCOAL A EZEQUIEL NEVES
Jornal de Música e Som no. 13 – 1975
Hermeto: “Queria ver todo mundo de gravador na mão registrando o que estou tocando. Não vou mais gravar discos, porque não quero mais me repetir. É importante isso. Você vê: levo pelo menos uma hora prá deixar meus músicos esquentarem. Depois tudo começa a explodir. Meus concertos duram mais ou menos umas duas horas e meia, sem interrupção. Ninguém vai se arriscar a lançar isso em gravação”. Hermeto se queixa do desânimo dos músicos mais antigos e muito comprometidos com o sucesso. Elogia os novos músicos: “Que acabaram com aquele preconceito de cada um tocar determinado gênero”. Quando fala dos mais jovens, se entusiasma e lembra logo alguns nomes que considera importantes e mal divulgados: “Tem o Toninho Horta, Novelli, Raul Mascarenhas, o Nivaldo Ornelas, o Lelo (pianista de 19 anos), Zé Eduardo (“ótimo baterista e percussionista”).
A FLAUTA MÁGICA
O Globo – terça feira, 24/02/1976
Com o Museu de Arte Moderna superlotado, o concerto começou com tudo escuro… Banda soberba com Hermeto: Nivaldo, Mauro Senise, Raul Mascarenhas, Lelo, Aleuda, Toninho Horta, Zeca (um baixista de pique assombroso) e Zé Eduardo (um dos raros bateristas a empurrar e incendiar o som desse time). Há muito não vejo um grupo tocar com tanta inspiração, criatividade e sobretudo alegria.
AO VIVO: HERMETO E SEU FORRÓ DOIDO
Jornal de Música no. 21 – Rio de Janeiro, 26/08/1976 – Ana Maria Bahiana
Ora, Hermeto Pascoal! Não sei onde vou achar letras nessa máquina para dar uma pálida idéia do que se passou no Museu de Arte Moderna. Foi som. Foi loucura. Foi tudo junto, e às vezes era demais para nossos pobres ouvidos humanos… a destacar: a notável “cozinha paulista” de Hermeto, com o avassalante baterista Zé Eduardo pontificando… e a platéia, tão esdrúxula e variada quanto o super som de Hermeto. Estavam lá, entre vários nomes… hã… colunáveis… os doces bárbaros Gil e Caetano, os músicos extraordinários Robertinho e Luiz Alves e o professor Mário Altuori, aquele que responde sobre saúvas na tv. Ah, Serginho dos Mutantes também estava lá. Tomara que tenha tido bom proveito.
SHOW BIZZ
Revista ELE – 08/1976 – Nelson Motta
Não vamos perder tempo falando da tolice dos que marcaram touca não vendo Hermeto ao vivo até hoje. Tua cabeça é teu guia, malandro. Hermeto se apresenta sempre com um time básico que inclui o tecladista Lelo, o esplêndido e preciso baixista Zeca e um dos maiores bateristas e percussionistas que já ouvi no Brasil nos últimos tempos: Zé Eduardo. É de São Paulo. Zé Eduardo é um baterista da escola que nos apresenta as maiores explosões criativas do instrumento: a da energia e do vigor, aliadas a uma fúria de tocar, pulsar, empurrar a banda … ser da banda de Hermeto pascoal representa quase uma condecoração para qualquer músico do primeiro time brasileiro, inclusive o internacional (Egberto, Robertinho, Airto, Toninho Horta – todos já tocaram em volta de Hermeto). Zé Eduardo toca durante duas horas e meia, três, só com um intervalo pequeno entre as duas partes… durante horas, o baterista toca com o corpo inteiro e faz uma física de horrorizar qualquer garotão “healthy”. São mil climas diferentes, uns mais doces, outros arrítmicos; uns tensos e enervantes, outros sincopados e leves. O trio, a cozinha, evolui ora como uma locomotiva, ora como bichos elétricos: a loooooooooooucura.
HERMETO E SUA BANDA ALL STAR: UM DELÍRIO
O Globo – terça feira, 14/09/76 – Nelson Motta
Gilberto Gil saiu correndo dos Doces Bárbaros canecânicos e dominicais ainda a tempo de pegar a segunda parte do concerto de Hermeto no Terezão. Egberto Gismonti estava lá desde o começo, e como sempre vem acontecendo – foi simplesmente apoteótica a apresentação… Há que fazer uma referência ao punch e vigor do baterista e percussionista Zé Eduardo, que “dá de lenço” em Airto e juntamente com o baixista Zeca (outro gigante), proporciona uma pulsação irresistível à banda all star. Zeca, Zé Eduardo e o pianista Lelo, além de músicos excepcionalmente criativos e dotados individualmente, seguram a barra o tempo inteiro e proporcionam um backing soberbo para as improvisações individuais e coletivas do naipe de metais … detalhe vexatório para a fonografia nativa: Hermeto… gravou até hoje apenas um LP,um chocho e frio Lp, que não conseguiu capturar no estúdio nem um décimo da música imensa e da criatividade de Hermeto. Há que se gravar urgente o LP com êle e sua banda – a maior concentração de grandes instrumentistas do momento. Mas há que ser “ ao vivo “, para tentar registrar as criações de momento e as improvisações de Hermeto e sua banda – maravilha, justamente o prato forte do lance… Uma boa notícia, que acaba de chegar: a pedidos ( muitos ), Hermeto reataca de amanhã a domingo no mesmo local: absolutamente não percam: É Música!
TOQUES DE HERMETO PASCOAL
Revista Modern Drummer – Em Português – 10/2002
Zé Eduardo Nazario: “No final dos anos 60, eu e o Itiberê Zwarg (baixo) tocávamos juntos e frequentávamos o CAMJA, clube de jazz em São Paulo. Numa tarde, ao entrarmos, ouvimos o som de um piano. A sala estava escura, as luzes apagadas. Demos aquela olhada um para o outro, e nos perguntamos: o que é isso? Sorrimos e entramos. Ao ligar o interruptor, nos deparamos com o Hermeto, que virou-se e foi logo nos convidando para fazer um som com ele. Tocamos “Céu e Mar” por aproximadamente uma hora sem parar. Depois disso só fui me encontrar com ele alguns anos depois, em 1972, quando ele assistiu a alguns trabalhos dos quais eu participava. Em 1973 fui convidado a ingressar no seu grupo, e era tudo o que eu queria naquele momento. Agarrei com unhas e dentes aquela oportunidade, e tenho certeza de ter desenvolvido um trabalho importante e deixado minha contribuição ao longo dos quatro anos que lá estive, levando comigo a força espiritual que une, de maneira especial, a todos os que por lá passaram, e os que estão.”
ZEN pergunta a Hermeto: Que tal nos encontrarmos fisicamente para um som com a turma toda?
Hermeto Pascoal: Ave Maria! Você sabe que isso seria muito bom, o maior sonho, nós somos uma família! Você, o Lelo e toda a sua família sabem que estão no meu coração e sabem do apreço que nós temos. Quem saiu do grupo, saiu fisicamente. A gente continua nos amando cada vez mais.

 

 

 

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