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Vinil Review
08 novembro 2017

Desbravando a terra do sol da meia noite.

Land of the Midnigth Sun é o primeiro disco solo do guitarrista de New Jersey, Al Di Meola. Foi gravado e lançado em 1976, e teve produção do próprio músico. As influências gravitavam entre o jazz fusion e a proposta latina (aos moldes do já consagrado Carlos Santana), além do intervencionismo clássico (no violão, aos moldes de Paco de Lucia). Meola alcançou a notoriedade após o ingresso na banda de Chick Corea – Return to Forever – no disco Where Have I Known You Before de 1974. Permaneceu na banda até 76, lançando No Mystery (1975), e Romantic Warrior (1976). Em 2008 a formação voltou em Returns. O primeiro disco do guitarrista traz à complexidade jazzística característica da banda de Corea aliada a precisão técnica de um mago das cordas.

O álbum traz uma diversidade de climas, por vezes aderindo a um feeling mais agitado, por vezes se concentrando em uma aura mais sentimental, mais melódica, multidimensional e colorida.

Meola se cercou de grandes instrumentistas do fusion. A primeira faixa, a agitada e com acentuado tempero latino trazia Mingo Lewis na percussão e nos teclados, Steve Gadd na bateria, e Anthony Jackson no baixo. O trabalho do guitarrista aqui é soberbo com grandes solos e riffs matadores em um ritmo cadenciado, e em diversos momentos, há intervenções acústicas muito bem engendradas e inspiradas. A influencia de Santana é visível, mas tal fato não possui um viés negativo. Land of Midnight Sun é a segunda faixa e conta com o ex-parceiro de RTF, Lenny White na bateria, Mingo Lewis na percussão, Barry Miles no piano e sintetizadores e Anthony Jackson no baixo. A faixa traz novamente o ritmo mais cadenciado, permanecendo com o tempero latino da musica anterior. Os timbres do piano elétrico encontram-se belíssimos nesta musica. Tal faixa traz uma mudança de andamento com uso de sintetizadores que imprime uma marca muito positiva à condução do ritmo e a sua duração. Lembra alguns momentos do clássico Romantic Warrior do RTF. Os dedilhados técnicos dos riffs e as intervenções melódicas são fabulosas. A parte com sintetizador lembra muito os discos Amigos e Moonflower (76 e 77) de Santana, além da inflexão do estilo flamenco. Conforme o guitarrista, tal influencia foi mutua.

Sarabande from Violin Sonata in B Minor é a peça mais imediatamente pessoal e intimista, tendo esta sido escrita originalmente por Bach. O próprio reporta o impacto da musica original em sua concepção como guitarrista. Algo da faixa lembra Steve Hackett em sua Horizon de 1972. A adaptação de uma peça clássica foi de certa ousadia, mas com a destreza de Meola, tal fato acaba consubstanciando em um ponto positivo. São ecos de projetos futuros (The Guitar Trio). Love Theme from Pictures of the Sea é a quarta faixa, e novamente sua duração é fugaz, mesmo assim, são destes momentos certeiros que fazem a musica em si, emocionante e fabulosa em seu todo. Com certeza, o fato de a musica não se desenvolver de forma progressiva, nos moldes de uma suíte progressista é o que constrói sua beleza radiante e de certa forma precoce em sua conclusão. O corte certeiro mostra em definitivo a visão de Meola naquele momento, em suma, uma amostra romântica e melodiosa em uma das sequencias mais belas e distintas deste álbum. E para os menos de 3 minutos, muito pouco foi usado do esforço dos músicos, mesmo com melodia tão simples, mas não menos genial. Stanley Clarke esta presente na faixa, nos vocais (muito gentis fazendo dueto com Meola e Patty Buyukas) além de Mingo na percussão.

A mais Linda e esfuziante música!

O lado B abre com a complexa, progressista Suite: Golden Dawn de quase 10 minutos, dividida em Morning Fire, Calmer of the Tempest e From the Ocean to the Clouds, com a seguinte formação: Alphonse Mouzon (bateria), o monstruoso Jaco Pastorius (baixo), Barry Milles no piano e teclados e Mingo na percussão. A formação consegue entregar uma musica estupenda, lembrando em alguns momentos o Mahavishnu Orchestra. A musica vai se expandindo em várias camadas, com diversidade de andamentos e climas, dos mais agitados, pesados, jazzísticos e até mesmo os mais calmos. Como no Mahavishnu, toda esta agitação vai se mixando e sempre vai se modificando e expandindo, trazendo uma sensação de prazer musical inenarrável, promovida por uma simbiose mutante sobrenatural. Apesar da semelhança com o combo de Mclaughlin, o clima é mais ameno, inexistindo cores mais sombrias e espiritualistas como no segundo disco da Orchestra.

Destaque óbvio para a agitação ferrenha de Pastorius, em grooves recheados do mais pesado e agitado funk, e Meola não deixa barato. São quilos de rotundos solos olímpicos que não dão a mínima trégua ao ouvinte, que possivelmente não segura o feeling monstruoso deste épico episódio. Luz e sombras, energia radiante solar e brisa noturna na medida certa.

Possível que seja a melhor faixa do disco (junto com Pictures of the Sea) e se iguala a posterior Elegant Gypsy suíte, bem como se mantem nos mesmos patamares dos grandes clássicos épicos do Mahavishnu e do Weather Report. Os riffs de Meola seguem o andamento bombástico de Pastorius, acamado por pianos elétricos de Barry Miles, quase na tradição do funk rock dos “caçadores de cabeça de Hancock. É possível vislumbrar com a imaginação aquele passo performático característico de Pastorius no palco, conduzido por seu compasso segmentado, continuo e abrasivo, sempre levado pelo feeling avassalador de suas notas nada ordinárias. Short Tales of the Black Forest, é a ultima faixa, e foi escrita por Chick Corea. Conta com o próprio no piano e Meola na guitarra de 12 cordas. Após o agitado e caloroso clássico anterior, Meola aposta em aspectos mais simplistas de sua musica, novamente mencionando a produção mais intimista, nos calcanhares do Return. A métrica não chega a ser seguida em sua totalidade, com pianos mais tortuosos (lembrando algum peso clássico de Keith Emerson).

Mas como ocorria no RTF o que é produzido por estes não pode ser definido como menos do que excepcional, principalmente nas intervenções solo de Meola, mostrando o domínio do violão clássico. Clarke, White e Corea participam do disco, porém não se digladiam na mesma arena musical. O RTF continuou na estrada e lançou Musicmagic e RTF Live (1977), já sem White na bateria e com um corpo mais completo de metais, além da presença de Gayle Moran. Meola continuou lançando belos discos solo, e trabalhou com Paco de Lucia e Maclauhglin. O disco posterior a Midnight Sun é o também fabuloso Elegant Gypsy com De Lucia, Jan Hammer, Lenny White, Steve Gadd e outros que participaram do primeiro disco solo. Somente a faixa Flight over Rio já valeria o status de legendaria. Land of Midnight Sun foi alçado pela Billboard Top Jazz Albuns em posição de numero 13 e na Billboard 200 ficou em numero 129. É um disco fabuloso de um guitarrista de mesma qualificação. Quem aprecia jazz fusion da melhor espécie deve conhecer este clássico (mas também vale dar uma passada em Elegant Gypsy, Cassino, Splendido Hotel, Electric Rendezvouz e Live: Tour de Force). Land of Midnight Sun traz um musico de espirito livre e desbravador, que em prol da expressão artística vem imprimindo sua paixão e sentimento como se não houvesse amanhã, ou como se criasse a ultima musica da história de sua vida.

Toda a musica contida neste receptáculo atemporal é tratada de uma forma especial, única e calorosa, o que verdadeiramente torna este disco inesquecível.

 

Rusty James

 

PUBLICADO NO NUMERO 337 NA SESSÃO ALBUNS OBRIGATÓRIOS DO GRUPO SECRETO ROCKPEDIA, DO FACEBOOK. O ARTIGO ATUAL TEVE ALGUMAS ALTERAÇÕES.

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