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Vinil Review
27 novembro 2017

O Villarino – Onde tudo começou.

Foi neste bar do centro do Rio de Janeiro que Vinicius de Moraes propôs a Tom Jobim a primeira parceria.

 

Vilarino, Vilariño, Villariño, Vilarinho. O nome deste simpático bar já foi grafado de várias formas. Apesar do atual proprietário confirmar que a placa “Villarino”, atrás do balcão, está lá desde a inauguração do bar em 1953, os cronistas e os frequentadores, os amigos e aqueles que presenciaram o encontro histórico, todos divergem. Mas não importa: no essencial, o consenso é indiscutível.  Situado estrategicamente nas proximidades do aeroporto, na esquina da Avenida Calógeras com Presidente Wilson, o Villarino era um dos locais preferidos pelos artistas, jornalistas, poetas e intelectuais do Rio para um bate-papo e um chopp no fim da tarde. Vários artistas em começo de carreira também apareciam por lá, procurando travar novas amizades. Algumas redações de jornais, gravadoras de discos, editoras, o Ministério da Educação e o Itamaraty, ficavam perto do bar. Na entrada, o Villarino é uma mercearia, vendendo comestíveis finos e bebidas importadas. Mais ao fundo, chega-se a um espaço com algumas mesas, onde o whisky é a bebida mais solicitada.

Na década de 50, muitos dos artistas que frequentavam o bar deixaram nas paredes as marcas de seu talento e algumas de suas obras. Os pintores Pancetti, Di Cavalcanti e Antonio Bandeira faziam desenhos; Ary Barroso escreveu os primeiros compassos de Aquarela do Brasil; Vinicius de Moraes e Pablo Neruda contribuíram de próprio punho com alguns poemas. Também lá ficaram as assinaturas de vários frequentadores. Entre eles, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Dolores Duran, Aracy de Almeida, Mário Reis, Sérgio Porto, Paulo Soledade, Irineu Garcia, Elizete Cardoso, e, mais raramente, Carlos Drummond de Andrade. Saindo de seu trabalho na gravadora Odeon, Tom Jobim de vez em quando passava pelo bar, esperando por um horário mais desafogado de pegar uma condução de volta à Zona Sul, ou por uma carona.

Em 1956, talvez no outono, e não no verão, como consta na placa colocada junto à entrada do bar, o poeta Vinicius de Moraes, recém chegado de Paris, contava aos amigos Lúcio Rangel e Haroldo Barbosa, numa mesa do Villarino, as novidades sobre a peça de teatro que queria encenar. Vinicius pensava em adaptar para o ambiente dos morros e das favelas cariocas o mito grego de Orfeu, o divino músico da Trácia, que desce aos infernos em busca de sua Eurídice. O projeto já andava por sua imaginação desde 1942, mas o terceiro ato só foi escrito no início dos anos 50, em Paris. Por sugestão de seu amigo, o poeta João Cabral de Melo Neto, o texto foi inscrito no concurso de peças de teatro do IV Centenário de S. Paulo, em 1954, no qual obteve o primeiro prêmio. Também foi publicado na íntegra na revista Anhembi.

Ainda em Paris, Vinicius obteve financiamento para a produção da peça. Com o texto pronto e premiado, Vinicius precisava de quem fizesse as músicas da tragédia carioca Orfeu da Conceição. O primeiro a ser consultado foi Vadico, compositor, pianista, e arranjador, parceiro de Noel Rosa em vários sucessos do calibre de Feitiço da Vila. Vadico não aceitou o convite, por achar que a tarefa era muito árdua para quem não andava com uma saúde de ferro.

E foi assim que, de volta ao Villarino, Lúcio Rangel sugeriu a Vinicius o nome do pianista Antonio Carlos Jobim, então com 29 anos. Tom Jobim e Vinicius já se conheciam desde 1953, mas ainda não eram amigos e tinham apenas uma relação cordial. Logo foi combinado um encontro entre os dois, apadrinhado por Rangel e Barbosa. No Villarino, é lógico. Neste dia, Tom, com sua pasta de arranjador no colo, ouviu de Vinicius uma detalhada explicação sobre a peça Orfeu da Conceição, e de como o poeta imaginava a música que deveria permeá-la e juntar-se a algumas letras que já havia feito.

De Tom Jobim, preocupado com um difícil início de carreira e com as contas que venciam no fim do mês, ouviu-se somente a frase famosa, relatada tantas vezes pelo próprio compositor em outras mesas de outros bares: “Tem um dinheirinho nisso?”

Lúcio Rangel, perplexo, ainda tentou consertar: “Mas Tom, como é que você ousa falar com o poeta sobre dinheiro numa hora dessas?”  Tom já morava no apartamento 201 da Rua Nascimento Silva 107, em Ipanema, quando ele e Vinicius começaram a trabalhar nas músicas, por volta de maio de 1956. O poeta já lhe havia dado uma cópia da peça com indicações dos lugares onde entraria música, e esboços das letras de alguns sambas. Tom Jobim contava que as primeiras produções da nova dupla não os entusiasmaram. Mas logo em seguida, acharam o rumo certo. Entre as músicas de Orfeu, está o sucesso mundial “Se todos fossem iguais a você”. Vinicius já trouxera pronta da Europa, letra e música, a valsa “Eurídice”.

Nos anos 60, o proprietário do Villarino, aborrecido com o que considerava uma sujeira nas paredes de seu estabelecimento, mandou pintar tudo de verde. Nada se salvou. Anos depois, Antonio Vasquez Alvares, antigo garçom e novo proprietário, tentou recuperar as preciosidades que jaziam sob a pintura assassina, mas foi em vão. Várias fotos da época ainda nos mostram um pouco do que ficou soterrado debaixo da atitude insensata do antigo dono do bar. Veja ao lado a reprodução de uma fotografia que está atualmente colada numa parede mais ao fundo do Villarino. Por trás dos que estão à mesa, pode-se ver alguns dos desenhos nas paredes. Vinicius sorri à cabeceira da mesa; logo à esquerda na foto, está Lúcio Rangel; à direita de Vinicius, o pequeno Pedro, seu filho; em pé à direita, o poeta Paulo Mendes Campos; logo abaixo dele, o radialista Fernando Lobo.  O Villarino ainda está no mesmo lugar, e várias coisas, como por exemplo a simpatia dos garçons, continuam como antes. A mercearia na entrada continua oferecendo produtos finos. As mesas mais ao fundo convidam a um drink. Com exceção do crime das paredes, a casa permanece até hoje mais ou menos como era nos anos 50, e daí o seu charme especial.

Se você estiver no centro do Rio, vale a pena dar uma chegada ao Villarino para um whisky de fim de tarde. Você verá a foto acima em tamanho grande, e reconhecerá a mesa à qual Vinicius se sentava com seus amigos; percorrerão sua imaginação, como se por ali ainda estivessem, aqueles mesmos artistas pintando as paredes com seus desenhos e notas musicais; e, naquele ambiente agora mais tranquilo, “na hora do ângelus”, como dizia Tom Jobim, você se deixará ficar um pouco, ao sentir que está respirando o ar da História.

Villarino: esquina das avenidas Calógeras e Presidente Wilson, Rio de Janeiro.

Luiz Roberto Oliveira

Publicado no Clube do Tom

(http://www.jobim.com.br) – site em homenagem a Antonio Carlos Jobim

Bibliografia: 

Sérgio Cabral: ‘Antonio Carlos Jobim – uma biografia’

Ruy Castro: ‘Chega de Saudade’

Faculdades Integradas Estácio de Sá: ‘A vida de Tom Jobim’

Fernando Lobo: ‘À mesa do Vilariño’

Vinicius de Moraes: ‘Orfeu da Conceição’, Livraria S. José, Rio, 1960

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