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Vinil Review
04 dezembro 2017

Joni, thank you for always reaching me when I need to …

Dos versos mais tristes e mais bonitos do Amor…

“I’ve looked at love from both sides now
From give and take, and still somehow
It’s love’s illusions I recall
I really don’t know love at all…”

É de Joni, a Grande Diva Canadense que fez 74 anos este ano, em sete de Novembro…

Bob Dylan havia dito certa vez que ela era dos “homens mais durões” que ele já conheceu. Estava certo. Ela, Roberta Joan Anderson, forte, vem sobrevivendo a vários dramas pessoais. Sua infância na pequena cidade de Saskatchewan foi interrompida quando ela entrou em contato com a poliomielite, aos oito anos, em 1951. Em 1964, ela engravidou e, devido a problemas financeiros, deu sua filha recém-nascida para adoção no ano seguinte –  a música, “Little Green”, do álbum “Blue”, é em homenagem a filha perdida e, em “Chinese Cafe”, uma música lançada em 1982, ela cantou: “Minha criança é uma estranha/eu a aborreço/mas eu não poderia criá-la”. Ela se reuniu com sua filha, Kilauren Gibb, em 1997. Antes de partir sozinha para ser uma das maiores cantoras folk, teve um casamento breve e infeliz com o seu parceiro musical, Chuck Mitchell.

Com uma história de luta, muito obstinada, sempre ditou seu destino artístico, jamais se rendeu ao machismo do show business. Joni Mitchell sempre foi uma mulher singular, desde a época em que era uma bela hippie dos anos 70 até se tornar uma das maiores cantoras e compositoras da música contemporânea norte-americana.A sofisticação de sua composição e, em particular, seus arranjos musicais é o elemento essencial que separa Joni de seus contemporâneos, mesmo dos pesos pesados líricos da cena musical dos anos 70, como Leonard Cohen, Neil Young e até Bob Dylan. E, no entanto, na indústria da música, Mitchell nunca recebeu o tipo de respeito devido a esses mesmos pares do sexo masculino.  Induzida ao Rock and Roll Hall of Fame em 1997, não participou da cerimônia, expressando seu desgosto no negócio da música. E quem pode culpá-la?

Este requinte melódico, lírico, composicional, ilumina as melhores canções escritas por artistas tão diversos como Lennon e McCartney, Randy Newman, Marvin Gaye e Curtis Mayfield, bem como de compositores de uma era anterior, como Cole Porter e George Gershwin. Essa qualidade de raros e poucos também define as melhores músicas que Joni Mitchell escreveu em seu pico criativo, em uma série de cinco álbuns super clássicos, Blue (1971), For The Roses (1972), Court and Spark (1974), The Hissing of Summer Lawns (1975) e Hejira (1976).

Blue é um capítulo à parte na discografia de Mitchell, considerado um dos álbuns mais importantes da história da música, é Joni sem defesas, demonstrando uma honestidade de sentimentos que poucas vezes se viu em uma obra musical. Mitchell nunca mais surgiria de forma tão aberta e reveladora.  

“Raramente há uma nota de desonestidade nos vocais”, disse a própria Joni sobre Blue.

“Eu estava no meu ponto mais indefeso quando fiz Blue. Bom, estar completamente indefeso neste mundo não é boa coisa. Pode dizer-se que tive um esgotamento mas continuei a trabalhar. Nesse processo, quando nós vamos abaixo, há outras forças que também surgem, a clarividência e… tudo se torna transparente. É uma espécie de situação que nos ultrapassa, em que mais informação entra, mais verdade do que aquela com que nos é possível lidar. E, no meio disto tudo, escrevi o disco”.  

“É provavelmente o disco mais puro que alguma vez farei”, ponderou Joni Mitchell. “Para sobreviver neste mundo, temos de ter defesas… mas elas são, na verdade, uma espécie de pretensão. E, nessa altura da minha vida, as minhas foram-se… de fato, foi uma grande oportunidade espiritual, mas ninguém à minha volta sabia o que se passava. Eu só sabia que tudo adquirira uma espécie de transparência. Eu via-me com tanta clareza. E via os outros com tanta clareza que não conseguia estar com pessoas. Notava todos os artifícios num tom de voz. Talvez fosse resultado de um esgotamento nervoso. Seja lá o que o provocou, era um estado de consciência diferente, não induzido por drogas.

 “A minha pele era ‘fina’. Era só nervos expostos. Portanto, não havia capacidade para fingir. As coisas que as pessoas adoram, agora – a atitude, os artifícios e as poses –, eu não era capaz dessas coisas. 

Nunca mais ficarei assim e nunca mais farei um álbum assim”.

Mitchell evocou Charlie Parker, procurando explicar os motivos que a levaram a fazer Blue e o que aprendeu: 

“É um álbum muito puro, tão puro quanto Charlie Parker. Não há muitas coisas puras na música. Charlie Parker tocava uma ópera pura da sua alma – especialmente quando se encontrava muito doente. Eu não tinha defesas. E, quando não as temos, a música torna-se ‘santificada’ e consegue comunicar”.

O sucesso de Blue fez de Mitchell uma estrela, a voz mais poderosa e pessoal de uma geração emergente de cantores e compositores confessionais baseados na costa oeste, que inclui Taylor, Jackson Browne e Carole King.Blue, porém, também sinalizou de maneira sutil a mudança musical interior que se seguiu em Joni. A forma como ela enuncia as primeiras notas da canção do título, estabelecendo a palavra “blue”, esticando-a e dando amplitude a sua voz em duas oitavas e meia, à maneira de uma cantora de jazz experiente, dá a deixa do espírito implacavelmente inquieto de Mitchell. O termo cantora popular ou folk já não a continha.

Começando uma nova fase, desenvolveu arranjos e vocais cada vez mais elaborados, com afinações incríveis que acabaram por marcar sua assinatura compositiva e aproximá-la cada vez mais do jazz contemporâneo.Em Janeiro de 1974, Joni Mitchell lança o disco onde consolida os novos rumos de sua música e um dos mais importantes de toda a sua obra: Court and Spark” que, não só agradou a crítica, como também foi o disco de Mitchell mais vendido de toda a sua carreira. Um fã incondicional deste trabalho é o guitarrista Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de Joni em Court and Spark”. No entanto, a própria Joni contou um fato muito engraçado: quando resolveu tocar o disco recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum… vai entender o velho Dylan, rs

 

Com as pedras sempre rolando lindamente para Joni, chegamos ao décimo álbum, “Mingus”, de 1979, onde ela escreveu letras para temas do lendário baixista, que morreu meses antes do lançamento. Uma parceria que Joni considerou quase sagrada! Um dos músicos presentes nas gravações de “Mingus”, o pianista Herbie Hancock, prestou uma bela homenagem a Joni num CD lançado em 2007. “River” traz participações de Corinne Bailey Rae, Luciana Souza e Leonard Cohen, entre outros, além da própria Joni, em uma  versão jazzy da crônica familiar-pacifista “Tea leaf prophecy (Lay down your arms)”. No mesmo ano, ela lançou seu último álbum, o ótimo “Shine”.

Há tanto mais para falar desta imensa artista, de tantas faces, tantos talentos, cantora, artista plástica, poetisa reconhecida no meio literário, uma guitarrista virtuosa como poucos, musicalmente inovadora, que sempre usou diversas afinações estranhas na guitarra, aspecto este que foi alvo de estudos acadêmicos, um deles do PhD James Bennighof, que discutiu-o tecnicamente em ‘The Words and Music of Joni Mitchell’: “Uma afinação específica normalmente implica em uma nota tônica específica. A tônica é essencialmente a base ou núcleo de um acorde, é a nota que queremos ouvir para sentir a resolução no fim de uma canção. As afinações de Mitchell têm tendência para resistir à tônica esperada e, por conseguinte, as suas canções soam-nos logo diferentes”. De acordo com Bennighof, “o fato de Mitchell relocar frequentemente uma única posição dos dedos ao longo do braço da guitarra para criar diferentes acordes, dá muitas vezes origem a um ‘movimento paralelo’ – todas as notas se movem na mesma direção de um acorde para outro. Muitas destas posições deixam soar cordas soltas, o que resulta em acordes complexos que partilham diferentes tonalidades”, uma abordagem nada ortodoxa da escala ocidental.

Durante todo o caminho percorrido, desde o percurso na folk music até seu trabalho hoje considerado clássicos do jazz, Joni é uma referência. Os seus poemas, as suas melodias tão complexas e ao mesmo tempo tão simples, seu bom gosto e sua sofisticação são irresistíveis. Uma mulher fascinante… inteligente e incrivelmente linda! Em tempos onde a caretice não imperava, homens e mulheres a desejavam muito. Todos a amavam, Joni era um objeto – de desejo, de curiosidade, de culto de uma geração inteira. Stephen Stills disse uma vez à jornalista Ellen Sander que “todo homem ou mulher a menos de cinquenta pés se apaixona por ela”.

Na canção Amelia, em homenagem à aviadora pioneira Amelia Earhart, Mitchell desnuda-se em uma auto-reflexão. “Talvez nunca tenha realmente amado, acho que é a verdade”, ela canta no penúltimo verso: “Passei toda a minha vida nas nuvens em altitudes geladas …” Mais uma vez, ela está articulando a dualidade essencial que sustentou sua vida, a busca do amor contra o isolamento da vida artística. É um reconhecimento de que Joni Mitchell criou sua melhor música a um custo pessoal alto. Ela já está doente há quase uma década, mas sua saúde piorou muito nos últimos meses. Fontes próximas à família dizem que ela não consegue mais andar e nem falar. Muito triste isso. Mas, ainda que Joni nunca mais venha a gravar nada, só temos a agradecer! Agradecemos a ela por tudo o que nos deu até hoje, suas imensas canções acumulam beleza e poesia para a eternidade…

We love you Joni… Forever and ever, you’ll stay in our hearts.

Happy Birthday, dear.

Themys Pontremoli Lima

 

Links para os álbuns citados no texto…
Blue (1971)
https://www.youtube.com/watch?v=WehhEw3w31w

For The Roses (1972)
https://www.youtube.com/watch?v=OcYvMQQolXI

Court and Spark (1974)
https://www.youtube.com/watch?v=oHEDdecvLpU

The Hissing of Summer Lawns (1975)
https://www.youtube.com/watch?v=I2rGbFhZrpk&t=98s

Hejira (1976)
https://www.youtube.com/watch?v=6If65D_DXS4

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