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Vinil Review
09 outubro 2018

Review: “Sotaques ” – Roberto Rutigliano.

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Roberto Rutigliano depois de gravar em 2017 os álbuns: “A música de Miles e Coltrane” e “Tango Jazz”, devia a nós para este ano um projeto discográfico que reunisse, ao mesmo tempo, um repertório autoral assim como temas da sua preferência musical,

o resultado parece uma flor que nasce e que invade tudo com seu novo perfume.

O repertório.

A escolha das músicas inclui “Estudo Jobiniano” (música do Rutigliano), uma deliciosa melodia que nos lembra o clima das gafieiras brasileiras – o nome faz referência ao compositor Antonio Carlos Jobim. Comenta Rutigliano: “Durante uma época me dediquei a estudar a obra de Jobim, meu método foi o de analisar a harmonia e refazer a melodia, o resultado foi muito proveitoso para reviver a obra do mestre”.

Na segunda faixa: “Lua Nova” (também autoral). Além do quarteto inicial com Sergio Barrozo, no contrabaixo, José Arimatéa, no trompete, Marcelo Magalhães Pinto, no teclado, e o próprio Rutigliano, na bateria, temos o sax do Marcelo Martins, o ritmo desta canção traz paisagens latinas.

Na terceira faixa o quinteto visita a composição “Loniens Lament” do John Coltrane. Na primeira exposição do tema temos um clima aberto que se desdobra em outras exposições num clima cubano. O final nos oferece um improviso geral da banda. Rutigliano comenta: “Tenho feito vários shows dedicados ao Coltrane, esta composição foi escolhida pela sua beleza e porque é muito pouco tocada, também por que acende o disco com sua força coltreniana”.

O CD continua com a belíssima composição do mestre Jobim “Derradeira Primavera” e “Noemi” uma balada autoral de Rutigliano dedicada a sua mãe.

Temos agora um samba-choro assinado por Rutigliano chamado “Garças sobrevoam a Avenida Brasil”, o nome lembra um episódio real; no meio do caos do transito urbano a presença de um bando de garças trouxe uma presença poética ao cotidiano cinza do asfalto.

O disco segue com “Yardbird Suite”, de Charlie Parker, numa versão Samba Jazz inspirada na versão histórica do saxofonista Paulo Moura.

Depois temos do Edu Lobo “Vento Bravo”, uma obra que traz um swing afro com uma levada  de contrabaixo muito especial – destaque para a interpretação do contrabaixista Sergio Barrozo, que também tocou na versão original do disco “Tom e Edu” de 1981. No improviso, o momento FREE do disco num diálogo incendiário entre sax e trompete.

O disco termina com uma balada assinada por Rutigliano, “Francisca nº 15”; a segunda parte da melodia nos remete a uma sonoridade japonesa. Esta frase inspirou a escolha da ilustração do artista plástico Katsushika Hokusai para a capa do disco.

Sobre a gravação.

A captação foi impecável, a escolha dos microfones e a acústica do estudo ajudou para valorizar uma sonoridade pura; na técnica o Cesar Delano foi o responsável pelo percurso todo, inclusive ele elogiou o processo com o qual foi gravado o disco.

Delano nos diz :

“Os músicos praticamente gravaram ao vivo, e tudo foi resolvido em um o dois takes; isto deixou a impressão de uma obra feita na hora”.

Diz Rutigliano: “Os músicos tem essa característica de improvisar no palco e tocar se ouvindo, a estratégia foi fazer arranjos simples que não exigissem  dos músicos uma relação muito racional com a interpretação; o resultado deixa a sensação de um concerto feito na nossa frente”.

 

Os músicos são todos intérpretes de excelência da cena carioca da música instrumental: Sergio Barrozo no contrabaixo, José Arimatéa no trompete, Marcelo Magalhães Pinto no teclado, Roberto Rutigliano na bateria e Marcelo Martins no sax.

O título “Sotaques” faz referência às cores brasileiras, latinas e de jazz que povoam o disco, assim como a ideia de que nosso sotaque falado carrega um pouco do nosso percurso sonoro.

Entrevista e material de vídeo Henrique Guedes

 

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