Post Exclusivo

Vinil Review
06 dezembro 2018

El Chico, precursor da bossa? Por Ed Calahani

Há muitas lendas cercando a influência do jazz sobre a bossa-nova. Mesmo Carlos Lyra, crítico da situação em 1961, não poderá negá-la, basta comparar a introdução de Let’s cool one (Thelonious Monk) com a sua clássica “Minha namorada”. Embora isso em nada interfira na qualidade e validade musical consolidadas em ambos os gêneros, ninguém resiste a botar mais “lenda” numa fogueira. E é isso que pretendo aqui.

Já ouvi muita gente boa afirmar que preferia ter sido Gerry Mulligan o propagador da bossa na América, ao invés de Stan Getz. Com efeito, Getz soa muito mais cool em suas gravações dos anos 50 (como o memorável solo em Early Autumn), do que em seu Jazz Samba. Que, enfim, é isso, muito mais samba do que bossa. Já Mulligan, depois de ter participado das antológicas sessões de Birth of the cool, com Miles Davis, protagonizou em 1952, uma sutil revolução: um quarteto sem piano, com Chet Baker, e no qual se faziam ouvir, como nunca antes, as nuances de baixo e bateria, respectivamente,Bob Whitlock e Chico Hamilton.

Ouçam as escovinhas tocadas por Chico em Bernie’s tune e The lady is a tramp. Ele praticamente consolida um idioma para esse tipo de baqueta, no rastro de Kenny Clarke e Denzil Best.  Na faixa, não por acaso, intitulada Carioca (tema de um filme com Fred Astaire*), ele inicia fazendo dos tom-tons um bongô, depois vai para os pratos, e de novo as escovinhas. Mas é em Carson city stage, e especialmente nas acentuações de Rocker, gravada mais tarde com um deteto, que se torna mais nítida uma improvável ponte com Milton Banana e Helcio Milito, para citar os mais proeminentes.  Por certo ele não era (ainda) íntimo do samba, mas é bom lembrar que, na época, emergia a influência da música latina no jazz, notadamente a cubana. Do Brasil, a referência ainda eram Zé Carioca, Carmen Miranda, Aquarela do Brasil, e o solitário baião Delicado, de Waldir Azevedo, que estourou nas paradas com o maestro Percy Faith. E o triângulo acabou surpreendentemente se imiscuindo no rhythm & blues, como se pode ouvir na clássica Under the boardwalk, com The Drifters.

Voltando ao Carlos Lyra, ele já afirmou, em entrevistas e em suas melodias inigualáveis, o quanto ele e seus colegas devem ao jazz da West Coast

El Chico (1921-2013), a Tempestade da Floresta (seu nome de batismo),  continuou com Mulligan por um bom tempo, simultâneo a seu notável trabalho solo, que vai desde explorações de inusitadas sonoridades, em um quinteto com violoncelo nos anos 50, até as gravações com o guitarrista Gabor Szabo, nos anos 60, em que se descortinaram novos caminhos para o jazz, então às voltas com a avalanche do rock. Lembro que a faixa Conquistadores era um hit nas noites de samba-rock promovidas pelo Chic Show, em São Paulo, por volta de 1980.

*o filme é Flying down to Rio, de 1933, e o curioso é que, num outro filme de Astaire (You’ll never get rich, 1941), Chico aparece como integrante da banda do ator/cantor/dançarino.

 

Ed Calahani

Formado em Psicologia e escritor de poesias e crônicas ligeiras (parece redundância mas não é). Dedica boa parte de seu tempo em estudos e experimentos com musicoterapia. Começou ouvindo orquestras na década de 60, músicas de novela, depois rock e MPB quando entrou na USP, até descobrir o jazz no festival de São Paulo em 1978. Se você captura o jazz, todas as outras músicas lhe soarão melhor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

Comentários

|